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    ENGMA NA TELEVISO

     Marcos Rey

     Orelhas:

      Escritor verstil, Marcos Rey j era conhecido pela qualidade de seus contos antes de comear a escrever para o seguimento de fico juvenil.
      Mas, com a combinao que soube fazer de suspense e reviravoltas em seus enredos, a qual somou habilidade para criar personagens e tramas convincentes, acabou
por conquistar o leitor jovem desde o lanamento de seu primeiro livro para esse pblico.
      Projetando-se como um dos melhores autores do gnero, Marcos Rey teve vrias de suas obras adotadas por programas de leitura escolar, desempenhando um papel
fundamental na formao de novos leitores. Estimulando por meio de suas histrias o gosto e o costume de ler, colaborou com professores e pedagogos no esforo de
preparar os alunos para apreciao de textos mais complexos, como os clssicos da literatura brasileira.
      Por isso, seu legado ultrapassa o conjunto de bons livros que nos deixou. O cultivo da leitura  imprescindvel para o desenvolvimento do conhecimento e do
esprito crtico. Sem aprofundar essas capacidades, o jovem no adquire autonomia, no discute sua realidade, nem a transforma. A leitura nos proporciona prazer
e, nas entrelinhas, nos conduz  liberdade ? e Marcos Rey, mas do que um guia,  um verdadeiro cmplice nesse programa.
      Marcos Rey, pseudnimo de Edmundo Nonato, nasceu no ano de 1925, em So Paulo.
      Estreou em 1953 com a novela "Um Gato No Tringulo". Nos anos 1980, comeou a escrever tambm para o pblico juvenil.
      Falecido em 1999, suas cinzas, transportadas num helicptero, foram espalhadas sobre So Paulo, cidade que consagrou como cenrio de seus contos e romances.











      Leia tambm:
      Bem-vindos Ao Rio
      Corao Roubado
      Dinheiro do Cu
      Doze Horas de Terror
      Enigma na Televiso
      O Mistrio do Cinco Estrelas
      O Rapto do Garoto de Ouro
      Na Rota do Perigo
      Sozinha no mundo
      
      Para saber mais:
      www.marcosrey.com.br
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
Marcos Rey


ENIGMA
NA TELEVISO


2 edio

























SRIE VAGA-LUME

editora tica





TEXTO
Edio: Fernando Paixo
Assistncia: Marta de Mello e Souza
Preparao dos originais: Jos Roberto Miney
Suplemento de trabalho: Marta de Mello e Souza


ARTE
Layout de capa: Ary de Almeida Normanha
Edio do miolo: Antnio do Amaral Rocha
Ilustraes de capa e miolo: J Fevereiro
Produo grfica: Ren Etiene Ardanuy
e Elaine Regina de Oliveira

























ISBN 85 08 01803 7



1989









Todos os direitos reservados
Editora tica S.A. - Rua Baro de Iguape, 110
Tel. (PABX) 278-9322 - Caixa Postal 8656
End. Telegrfico "Bomlivro" _ - So Paulo








MARCOS REY
PARA JOVENS E ADULTOS


      Quem no gosta dum livro cheio de ao, suspense, com personagens que parecem verdadeiros, e que reserve, para as ltimas pginas, uma surpresa capaz de sacudir 
o leitor? Foi com um romance juvenil assim, O mistrio do Cinco Estrelas, que Marcos Rey estreou na Srie Vaga-lume, em 1981. No ano seguinte, outro sucesso: O rapto 
do Garoto de Ouro. Mais do que um livro policial, era um pedao da vida duma grande cidade. Os que haviam lido esses dois, leriam depois Um cadver ouve rdio, cujo 
enigma comea pelo ttulo.
      Uma boa dose de humanidade, inclusive com lgrimas, tambm pode combinar com dinamismo e mistrio. Foi o que Marcos Rey provou em Sozinha no mundo, grande 
xito, lido pela maior parte dos alunos de primeiro grau. Veio, depois, um romance quase para adultos, Dinheiro do cu, que conta mil proezas por causa duma herana. 
Em 1985, Bem-vindos ao Rio, impacto sobre impacto, tenso da primeira  ltima pgina.
      Marcos Rey escreve tambm romances para adultos; alguns foram traduzidos, outros filmados ou adaptados para teatro e televiso. A Editora tica j lanou diversos 
ttulos seus: Malditos paulistas, um policial para no ser esquecido; A ltima corrida, verdadeira maratona de emoes, envolvendo um garoto e um cavalo; A arca 
dos marechais, histria dum homem que tinha um ba de dinheiro falso; e Esta noite ou nunca, do qual s no gosta quem prefere ch de losna a um bom livro.
      
      
       
       
        
      
     AS SENTINELAS:
     O CLUBE DAS SENHORAS ZANGADAS
      
      
      Eram seis as mulheres, todas de meia-idade pra l, e usavam vestidos escuros, do mesmo modelo antigo, como se fossem o uniforme da entidade. Todas as teras 
e sextas-feiras reuniam-se naquela casa de mveis pesados e tambm escuros para tomar ch e fazer planos para mudarem o mundo. Constituam uma Liga, ainda pequena, 
mas com a ambio de se expandir pelo pas inteiro. Eram as sentinelas.
      ? A verdade  que nos tem faltado eficincia ? lamentou a dona da casa e presidenta da Liga. ? A gente fala, fala, porm no faz nada. Poucos sabem que existimos.
        Outra sentinela, retirando um recorte de jornal da bolsa, rebateu:
      ? O jornal do bairro j noticiou nossas atividades.
      ? Trs linhazinhas apenas! O que adianta isso?
      Havia um homem na sala, mas certamente no pertencia  Liga, exclusiva de mulheres. Estava trocando fios eltricos e instalando um abajur. As mulheres, porm, 
envolvidas com problemas srios, nem olhavam para ele. O eletricista, no entanto, parecia interessado em no perder palavra.
      ? E se fssemos em comisso visitar os jornais? ? sugeriu uma sentinela baixa e gorda, servindo-se de outra xcara de ch. ? Concorda, Petra?
      Petra Santana, idealizadora da Liga, chefe e mentora daquele grupo de virtuosas senhoras do bairro da Tijuca, gostava de idias prticas e passveis de aperfeioamento.
      ? Estou de acordo, Elisa, mas por que no visitarmos tambm as emissoras de televiso? Hein?
      O novo timbre de voz da presidenta, desafiador, forou o eletricista a interromper momentaneamente o trabalho.
      ? Quer dizer, atacar o inimigo de frente? Na sua prpria toca?
      ? Claro, Elisa! Os jornais ajudam, mas no resolvem. Vamos, pois, ao ninho das serpentes.
      Uma senhora tmida, que ainda no abrira a boca, revelou receios:
      ? Acredito que a direo nem nos receba.
      Petra, j empolgada pelo plano, ps-se de p. Viva de militar, sabia que no se toma uma grande deciso sentado confortavelmente.
      ? Se os diretores no nos receberem, falaremos com os produtores e autores daquelas obscenidades. Ou com ensaiadores, atores, atrizes, tcnicos, com todos 
os que trabalham l. O que no podemos admitir, de forma alguma,  que essas escandalosas telenovelas continuem invadindo nossos lares e desencaminhando a juventude. 
Onde se viu, beijos que chegam a demorar quarenta e dois segundos?
      ? Como sabe com tanta preciso? ? espantou-se uma das sentinelas.
      O eletricista tambm queria ouvir a resposta.
      ? Porque cronometrei ? esclareceu Petra orgulhosamente. ? E retirando um cronmetro da gaveta: ?  igual ao que usam nas competies esportivas. Assisto aos 
captulos com isso na mo.
      A exibio do brilhante e responsvel aparelho equivaleu a um grito de guerra. Agora a Liga estava equipada. Qualquer excesso ou liberalidade nos programas 
de televiso seria inapelavelmente combatido.
      
      
     O DITO FEITO
     
      Uma Kombi, dirigida com energia pela prpria presidenta da Liga das Sentinelas estacionou diante do porto da TV Mundial, verdadeira fbrica de telenovelas 
e shows, sintonizada, diariamente, por quarenta milhes de telespectadores.
      ? Queremos falar com o diretor-geral ? informou Petra  portaria.
      ? Est no exterior.
      ? Falamos ento com qualquer diretor de novela. Pode avisar que as sentinelas esto aqui.
      Na televiso, lugar de trabalho na base do corre-corre, ningum
dispe de tempo para receber visitantes e admiradores. Quem no  da casa atrapalha.
      ? A senhora deve ento mandar uma carta com seu telefone e aguardar resposta.
      ? Mas se trata dum assunto de segurana nacional. Urgentssimo.
      ? S h um diretor no momento e est no estdio, gravando.
      ? Vamos entrar de qualquer maneira ? decidiu Petra, crescendo diante do porteiro. ? Estamos em misso. ? E empurrando-o para o lado, invadiu o saguo da Mundial, 
acompanhada em bloco pelas demais sentinelas.
      Um contnuo ainda tentou det-las:
      ? Aqui ningum entra sem crach! Voltem!
      Nem foi ouvido. Marchando em passo militar, as senhoras da Liga j haviam chegado a um corredor, no edifcio principal da emissora, por onde circulavam atropeladamente 
funcionrios, tcnicos, msicos carregando instrumentos, e atores e atrizes vestindo figurinos dos tempos imperiais. Um deles, que devia fazer o papel de Dom Pedro 
II, quase caiu, ao ser trombado por Petra Santana.
      Vendo que muitos entravam por uma porta, as senhoras da Tijuca tambm entraram e, como se soubessem aonde iam, subiram e desceram escadas, cruzaram um espao 
aberto, passaram pelo bar-restaurante, pela sala de maquiagem, pela oficina de costura, pelo depsito de cenrios; por fim, estacaram diante duma tabuleta fixada 
numa porta sanfonada: Estdio A.
      ? Aqui  que gravam aquelas porcarias! ? exclamou Petra, como se diante da entrada do Inferno.
      ? Mas no se pode entrar ? disse uma de suas comandadas.
      ? Quem disse? ? zombou a presidenta e empurrou a porta, mantendo-a aberta at que todas entrassem no estdio.
      Gravava-se uma cena da telenovela das oito, horrio de maior pique de audincia da Mundial, quando o pas parava para acompanhar os captulos. Aquele era o 
de nmero 125. No cenrio, uma luxuosa cobertura, o jovem ator Fbio Rocha paquerava Luciana Rios, ambos assduos freqentadores das capas de revistas. O personagem 
encarnado por Fbio era um falso garom, que obtivera o emprego apenas para aproximar-se da moa que amava, cujos pais, muito ricos, no permitiam o namoro.
      ? Vamos gravar esta cena de novo ? decidiu o diretor da novela. ? Faltou um pouco de naturalidade. Soltem mais o corpo. ? E voltando-se para uma linda moa 
da equipe: ? Algum problema de continuidade, Renata?
      ? No, Daniel. Tudo em cima.
      ? Esta vai valer ento. Claquete!
      Uma das cmeras gravou os dizeres da claquete: nome da novela, nmero do captulo e da cena. Numa das cmeras, acendeu uma luz vermelha: sinal de que ia gravar. 
As demais foram movimentadas,  procura de novos ngulos.
      Fbio, Ricardo na novela, entrou em cena trazendo uma bandeja com suco de laranja. Luciana, interpretando o papel de Andria, a moa rica, estava largada numa 
poltrona.
      
        ANDRIA (v Ricardo e assusta-se): ? Ricardo! O que faz aqui vestido de garom?
        RICARDO (gaiato, folgado): ? Seu pai me contratou. Parece ser timo patro.
        ANDRIA: ? Voc est maluco! Tire esse palet branco e desaparea!
        RICARDO: ? Maluco? Acho que levo jeito. Agora s falta me sindicalizar!
        ANDRIA: ? Mame viu voc?
        RICARDO: ? Viu e me deu nota dez. Coroa simptica! (Aproxima-se de Andria.) Foi uma boa idia, no? Agora podemos nos ver o dia inteiro. Vamos. Se liga 
na minha.
        ANDRIA (afasta-se de Ricardo): - No se aproxime que chamo o mordomo.
        RICARDO (vai-se chegando  Andria, atrapalhado com a bandeja): ? Andria, um beijinho s e eu volto pra copa. (Segura-a.) Um rapidinho. (Beija Andria prolongadamente, 
enquanto equilibra a bandeja, que fica cai-no-cai.)
      
      ? Parem! Indecentes! J se beijam h dezenove segundos! Petra Santana, de cronmetro em punho, invadira o cenrio e,diante das cmeras, bloqueava a gravao. 
Houve um rebulio no estdio.
      ? Quem so as senhoras? ? berrou pelo microfone, da tcnica, o diretor.   
      ? Estamos gravando, no sabem?
      ? Gravando uma obscenidade! Isso no pode ir para o ar. Probo-o.
      ? Probe em nome de quem?
      ? Em nome da Liga que presido. Somos as sentinelas, as defensoras da moral.
      A bela continusta, perplexa, entrou na discusso, enquanto Daniel, correndo, pisava o cenrio. Ningum entendia o que estava acontecendo.
      ? As senhoras no tm o direito de interromper nada. No era nenhum atentado ao pudor, mas um simples e ingnuo beijo de namorados.
      ? Ingnuo? ? contestou Petra, com asco. ? Sabe o senhor o que se passa na cabea desses dois? Sabe?
      Fbio Rocha, grande gozador, dobrava-se de tanto rir. Luciana, agora gargalhando, sentou-se no tapete. Os tcnicos apenas se entreolhavam, mas o que operava 
a cmera continuou trabalhando.
      ? Essa  chanchada da boa ? disse. ? Logo elas vo atirar pasteles. 
       
      Petra comeou um discurso:
      ? Vocs da tev so os culpados da degenerao dos costumes, da dissoluo da famlia, da decadncia da sociedade. Esto virando o mundo de pernas para o ar. 
Mas ns, as sentinelas, daremos um basta a toda essa imoralidade. Estamos de olho em vocs.
      Fbio, debochado, acercou-se da presidenta e deu-lhe um beijo no rosto.
      ? Contem comigo, posso colaborar como beijoqueiro arrependido. 
      A presidenta enxugou o rosto com a costa da mo. Nojo.
      ? Voc me pagar, rapaz ? ameaou, abandonando o estdio, seguida das demais, em fila, todas com cara de "misso cumprida".
      Pelo microfone, o operador de som comunicou:
      ? Tudo gravado. Querem ver? Est melhor do que qualquer show da Nina Flores!
      
      
     AVANTE SENTINELAS!
     
      Miranda, o diretor do telejornal das 19 horas, ps no ar a cena da invaso do estdio pelas senhoras da Tijuca. Coisa to ridcula que talvez bastasse para 
sepultar a terrvel Liga das sentinelas puritanas. Quem pensou assim enganou-se. Muita gente, apesar do teipe vexaminoso, tomou o partido delas, manifestando-se 
pelos jornais atravs de cartas e artigos. Inclusive polticos, como deputados e senadores, bateram palmas  Petra Santana. E em inmeros bairros da cidade surgiram 
muros pichados, dizendo: Avante, sentinelas! Vamos limpar a TV! Abaixo a pornografia!
      Entrevistados no telejornal, Fbio Rocha e Nina Flores fizeram as maiores piadas com as sentinelas. Enquanto Pedro Ventura, famoso ator de teatro e tev, chamou-as 
de fascistas e totalitrias. Gente como Petra Santana, no passado, condenara obras e perseguira artistas que hoje todos admiram e respeitam. Daniel, produtor da 
novela em questo, foi o mais prtico.
      ? Com toda essa polmica, os ndices de audincia aumentaram. Paulo Maciel, o mais jovem reprter da emissora, fez uma sugesto ao Miranda.
      ? O que diz de eu entrevistar a cascavel?
      ? Boa! Vamos pr mais lenha no fogo. Pegue a equipe e v. Ao contrrio do que supunha, Paulo Maciel foi imediatamente recebido por Petra e suas sentinelas.
      ? Vejam. Comeamos com seis sentinelas e j temos mais de cem inscritas. Logo abriremos sedes em So Paulo, Belo Horizonte, Porto Alegre e Recife. As sentinelas 
vo se espalhar pelo Brasil inteiro e acabaremos influindo decisivamente na opinio pblica ? declarou a presidenta da Liga com os olhos na cmera.
      ? Pretendem censurar tudo que se faz na televiso? - perguntou o reprter.
      ? No apenas na tev. Nossa campanha visa tambm o cinema, o teatro, a literatura, as letras de msica e a pintura. J notaram quanta pintura indecente existe 
por a?
      ? Mas exercer censura sobre qualquer tipo de arte no  democrtico.
      ? Nossas intenes so morais, no polticas. As sentinelas presentes aplaudiram.
      ? No acha que o desemprego, a fome e a mortalidade infantil so mais imorais que beijos e abraos? ? insistiu o reprter.
      ? So argumentos de esquerdistas. No nos convencem.
      ? H padres e at bispos que concordam com eles.
      ? Acho que esses religiosos deviam se ocupar mais com a alma das pessoas.
      Mais palmas.
      ? Dizem que as novelas andam at comedidas ultimamente. Concorda?
      ? Do ponto de vista moral, pioraram.
      ? Como a senhora tem tanta certeza, se detesta novelas?
      ? Sei porque no perco nunca um s captulo ? respondeu Petra Santana, dando a entrevista por encerrada.
      Na manh seguinte, Paulo Maciel correu  Mundial para ele mesmo editar a reportagem, enxug-la, reduzi-la ao essencial, temendo que podassem a ltima declarao 
de Petra, engraadssima, de que no perdia nunca um nico captulo de novela. O pas todo ia curtir essa.
      Miranda entrou na redao com uma cara esquisita.
      ? Venha ver a entrevista da Petra ? disse Paulo. ? Vai morrer de rir. O chefe do departamento continuou com a mesma cara esquisita, at pior.
      ? Fala em morrer de rir? Ser que no sabe ainda o que aconteceu?
      
      
     FBIO ROCHA,
     O DE MILHES DE NAMORADAS
      
      ? No sei. O que houve, Miranda?
      ? Vamos pegar o carro de reportagem. Teremos uma edio extra em trinta minutos.
      ? Edio extra? Algum incndio?
      ? O Fbio.
      ? O que tem o Fbio?
      ? Assassinado.
      No carro, correndo a toda pela praia, Paulo pensava em Fbio Rocha. Vinte e poucos anos, bonito, cuca fresca, apaixonara o pblico desde sua primeira apario 
numa novela, onde interpretava uma simples ponta. Meses depois, assinava um gordo contrato com a Mundial e dali em diante s dava ele nas revistas e colunas especializadas.
      Certa vez, Paulo fora a uma festa no amplo apartamento de Fbio Rocha, levado pela irm do ator, Renata, continusta da Mundial. Espantou-se.
        ? Pelo menos  vinte vezes maior que minha quitinete.
      ? H apenas um ano ele lavava carros num posto de gasolina e morava numa vaga na Lapa.
      ? Que salto! Nas Olimpadas ganharia medalha de ouro!
      ? Pura sorte ? disse Renata. Um dia lavou o carro de Sandra Lia, que era uma das atrizes mais badaladas da Mundial. Ela gostou dele e conseguiu-lhe um teste. 
E a est o mano, o ator mais votado no concurso da revista A semana na TV.
      ? Isso  que  madrinha! Ainda namoram?
      ? Coitada da Sandra, engordou muito. Fbio agora namora com Luciana Rios, seu par na novela. Mas dizem que j est de olho em outra.
      ? Ele e Sandra Lia ao menos conservaram a amizade?
      ? Ela  sua maior inimiga.
      Maior depois de Pedro Ventura, veterano dos palcos e estdios, que h uma dcada vencia o concurso, seqncia interrompida ao perder feio para o Fbio Rocha 
na apurao de dezembro. Dezenas de milhares de votos de diferena! Perdida a coroa, Pedro recusava at a cumprimentar o colega, em sua opinio um oportunista e 
mero gal de periferia.
      Outro, que tambm no podia ver Fbio, era o veterano Carlos Prata. Alcolatra e desacreditado por todos, apenas interpretava pontas e papis inexpressivos, 
conseguidos geralmente por caridade. Sempre que se acercava de algum produtor ou ator importante era para pedir uma chance. Certamente pedira tambm para Fbio. 
O gal, j eleito o mais popular pela revista, olhou o Prata do alto, como se a proximidade dum ator velho e fracassado o repugnasse, e afastou-se em silncio. A 
humilhao sofrida pelo Prata foi chorada em todos os corredores, salas e estdios da Mundial, verdadeiro rio, que s parou de correr quando a mgoa se transformou 
em dio.
      O Alfa Romeo de Fbio Rocha estava estacionado no trecho final da praia do Leblon. A Polcia chegara e um homem, provavelmente o delegado, conversava com Renata, 
inconsolvel. Na areia, um grupo crescente de curiosos, jornalistas e policiais cercavam um corpo cado.
      Paulo e Miranda desceram do carro para colher informaes. Fbio fora assassinado na madrugada com golpes de punhal ou faca, arma no encontrada no local. 
Seu relgio de ouro estava no pulso, seus valiosos anis nos dedos e muito dinheiro na carteira. No fora latrocnio; era o comeo do mistrio.
      
       
      
        O TELEJORNAL PRODUZ UMA BOMBA
     
      A reportagem foi rodada na praia, entre o mar e os altos edifcios da avenida Atlntica, nas casas dos artistas, amigos de Fbio, nas ruas, surpreendendo o 
espanto dos telespectadores, e na delegacia. Tudo entremeado com cenas das novelas que Fbio Rocha interpretara.
      Paulo Maciel desincumbiu-se com tanta segurana das entrevistas, que Miranda, com voz de chefe, decidiu:
      ? Voc vai trabalhar s nesse caso. Algo me diz que ainda dar muita matria.  um mistrio!
      A entrevista mais comovente foi a concedida por Nina Flores, a 
comediante, j famosa quando Fbio nascera.
      ? Era um tanto doido, mas um bom menino. Ele costumava dizer que as coisas iam to bem para ele que, se melhorassem, podiam estragar tudo.
      O delegado, doutor Reis, no tinha muitos esclarecimentos a fazer.
      ? No sendo latrocnio, podemos pensar em crime passional, vingana ou obra de algum demente, como aquele que matou John Lennon. A cmera focalizou Renata, 
irm de Fbio: culos escuros e cabea baixa, uma tristeza s. O reprter, embora seu amigo, no conseguiu extrair dela uma s palavra. Mas Luciana Rios, namorada 
de Fbio, falou, e at demais. Chegou inclusive a formular acusaes bem claras, que tiveram enorme repercusso.
      ? Querem saber quem matou Fbio? Pois eu direi. Foi um desses trs: Sandra Lia, Pedro Ventura ou Carlos Prata.
      Foi uma bomba, como se diz em linguagem jornalstica. Miranda, que adorava sensacionalismos, cumprimentou o reprter.
      ? timo, Maciel! No disse que o negcio ia ferver? Sua reportagem parece cena de filme policial, daqueles bons, do diretor John Huston. Genial! Paulo no 
estava para elogios, imprprios na situao.
      ? Miranda... Foi um colega nosso que assassinaram.
      ? Sei disso, e estou to chocado como a me dele.
      ? Fbio era rfo.
      ? Isso at que suaviza um pouco a dor da gente, no? Continue mexendo no caso. Sair dele como um dos melhores reprteres da televiso.
      
      
     OS LIBIS
     
      O velrio e o enterro de Fbio Rocha foram dois acontecimentos 
nacionais. Milhares de pessoas desfilaram diante do caixo morturio, no teatro da TV Mundial, e a aglomerao no cemitrio foi comparada  do sepultamento de Carmem 
Miranda. Houve choro, gritos e desmaios de fs. Sandra Lia, mencionada por Luciana Rios, entre os suspeitos, foi a nica deles que compareceu nas duas ocasies. 
Mas deve ter-se arrependido, porque centenas de pessoas a olharam com rancor, e uma delas, quem sabe a prpria Luciana, disse uma frase, logo tornada um coro de 
centenas de vozes:
      ? Priso para o assassino! Priso para o assassino! Priso para o assassino!
      Mais do que uma obrigao policial, era uma imposio popular. A Polcia teria que se rebolar para elucidar tudo.
      Paulo Maciel, no telejornal das 19 horas, no abandonou sua trincheira, como lhe ordenara Miranda. Suas contnuas aparies no vdeo tornavam-no to conhecido 
do pblico como os principais atores de novelas.
      Sandra Lia, Carlos Prata e Pedro Ventura foram imediatamente interrogados.
      ? Passei a madrugada do crime num hospital ? declarou Sandra Lia. ? Fiz companhia a uma amiga minha, que sofreu uma operao. ? E forneceu espontaneamente 
o endereo do hospital e o nome da amiga. ? Havia uma enfermeira que ia ao quarto de meia em meia hora. Chama-se Wilma. Falem com ela.
      libi perfeito.
      ? Eu estive parte da noite no bar Manequim ? disse Prata.
      ? E depois? ? perguntou o delegado, agora sob a luz da cmera.
      ? Fui para outro bar, o Saturno.
      ? E depois?
      ? A ltima parada foi no Caveira. A apaguei. Mas posso lembrar das pessoas que estavam comigo.
      O depoimento do Prata deu algum trabalho  Polcia, mas acabou convencendo.
      Com Pedro Ventura no foi nada fcil. Recusou-se a depor; tiveram de ir busc-lo.
      ? Onde estive naquela noite? No sei ? respondeu o ator. ? No lembro nem farei fora. Uma pessoa com meu nome, que representa tanto para o teatro e a cultura, 
no precisa dar explicaes de seus passos. Vocs que descubram onde estive. Boa noite!
      Miranda, vendo o teipe na redao do telejornal, exultava:
      ? O enigma est crescendo! Vamos dominar a audincia. Os produtores de novelas vo ficar com inveja!
      ? Ser que Pedro Ventura est implicado no crime? ? admirava-se Paulo Maciel diante de Miranda e de outros companheiros.
      ? No! ? berrou algum que entrava. ? Nem pensem nisso, pelo amor de Deus!
      Era um homem duns trinta anos, bastante excitado, que trazia  lapela do palet um crach de visitante.
      ? Eu no estava afirmando ? disse Paulo.
      ? No repita coisas assim! E injusto!
      ? Parece que o conheo ? lembrou Miranda.
      ? Sou Djalma Ventura, sobrinho de Pedro ? disse o do crach. ? Estou passando uma temporada no apartamento de meu tio e posso garantir que naquela noite ele 
voltou do teatro logo aps a sesso e no ps mais os ps na rua. No  de badalar, de sair por a. Se respondeu daquela maneira foi porque se ofendeu com a intimao. 
E um monumento nacional... At o presidente da Repblica o admira! A tal moa que levantou a suspeita  insensata, uma doida varrida. O que quer  publicidade. Nada 
mais que publicidade.
      ? No duvido ? concordou Miranda. ? Mas leve essa informao  Polcia, antes que seu tio se complique.
      Djalma aceitou o conselho, prometendo ir  delegacia imediatamente.  sada, afobado, chutou uma cadeira.
      ? O homem est descontrolado.
      ? Mas continuo achando que Pedro Ventura pode ser o assassino ? disse Miranda.
      ? Srio? Julga-o capaz disso? Um artista to respeitvel?
      ? Houve at um crtico teatral que o acusou de assassinar William Shakespeare ? respondeu Miranda.
      A turma do telejornal dobrou-se de rir. Quando Miranda fazia piadas tudo corria bem no departamento. Mas, para ele, o dia seguinte comeava na vspera. Estava 
eltrico.
      ? Paulo, v entrevistar as sentinelas amanh cedo. Antes, passe aqui, para estudarmos as perguntas. Quero um rebu bem grande.
      ? Eu no posso imaginar minha av cometendo um crime ? atalhou Paulo, farto das sentinelas. ? Esquea as velhinhas.
      ? Voc no pode imaginar sua av, mas eu posso imaginar a minha. Velhinha terrvel. Precisava ver com que prazer mrbido, com que deleite torcia o pescoo 
das galinhas.
      Nova gargalhada. O Miranda era assim.
      Na manh seguinte, Paulo passou pelo departamento para ouvir o Miranda e reunir a equipe. O chefe estava sentado  mesa principal, lendo concentradamente uma 
folha de papel.
      ? No vamos entrevistar as sentinelas ? disse. 
      ? Por qu?
      ? Surgiu um fato novo.
      Miranda passou ao reprter a folha de papel com o fato novo. Paulo leu. Numa nica linha, bem centrada, estava escrito em letras de frma vermelhas:
      
      
       
        
      
      
     A PRXIMA ATRAO
      
      Paulo devolveu a folha ao Miranda.
      ? Como recebeu isso?
      ? Veio pelo correio, dirigida a mim.
      ? Quem teria mandado?
      ? O provvel criminoso esqueceu de colocar no verso do envelope o endereo do remetente ? respondeu o chefe, fazendo uma brincadeira, no para rir.
      ? O envelope tambm est assim, em letras de frma? 
      Miranda mostrou-o:
      ? Letras um pouco tremidas, mas tambm de frma. A carta foi postada na agncia da Tijuca.
      ? Disse Tijuca? ? perguntou Paulo, quase num grito.
      ? No aprecia o bairro?
      ? Miranda, ligue as coisas! Tijuca! E onde est o quartel-general das sentinelas. ? Pode ser coincidncia, mas...
      Miranda deu ordem a Paulo:
      ? Rena a equipe e chispe para l. ? Mas no podia faltar uma piada: ? Se encontrar uma faca ensangentada no guarda-loua, telefone ao delegado.
      Batendo um recorde de velocidade, o carro de reportagem da Mundial logo parava diante da casa de Petra Santana. No era dia de reunio, ela estava s.
      ? O que querem desta vez?
      ? A senhora sabe que Fbio Rocha foi assassinado?
      ? Como no saberia? As tevs e os jornais s falam disso. Mas para mim no foi surpresa.
      ? No foi surpresa???
      ? Quem procede como ele procedia, estimulando o pecado, perventendo os coraes, envenenando a alma dos jovens, um dia recebe o castigo. Fbio simplesmente 
recebeu o dele. Agora, se me permite, vou ler para a cmera os estatutos de nossa Liga. Apenas dez pginas.
      ? Seria interessantssimo, dona Petra, mas estamos com pouco espao no noticirio. Voltaremos outro dia.
      
      O telejornal do comeo da noite mostrou em dose, inteira no vdeo, a ameaa em vermelho, j nas mos da Polcia, e a curta entrevista com Petra Santana, que 
todos julgaram comprometedora. Miranda continuava com a corda toda, vibrante. A mensagem aumentaria o interesse pela novelinha, criando um suspense, digno dum final 
de novela das oito.
      ? Essa carta pode ser pura brincadeira ? opinava Paulo.
      ? No desejo outra morte ? replicou Miranda, ? mas que daria um tremendo "au" daria. Nosso departamento se tornaria o centro da emissora. Tambm merecemos 
grandes salrios, ou no?
      ? O que sei  que estou muito cansado e que vou ler um bom livro na cama. No h nada melhor.
      ? V, eu ficarei aqui vendo se descubro quem poderia ter mandado essa mensagem. Aguardem a prxima atrao ?  a nossa frase dos interprogramas. Pode ter sado 
de gente daqui de dentro...
      Paulo, no querendo pensar mais no assunto, saiu. No corredor, encontrou Renata, ainda com culos escuros.
      ? A Polcia tem novidades? ? ela perguntou.
      ? Nenhuma.
      ? Logo tudo estar esquecido. Fbio foi substitudo na novela por Milton Brs, que tanto queria o papel. Luciana j andou pedindo desculpas pelas acusaes 
que fez e est trabalhando com muita garra. Ela e Milton vivem juntinhos pelos cantos. O espetculo continua.
      Paulo, sem saber o que comentar, foi pegar o carro no ptio e seguiu para sua quitinete, no Leme. Programou a leitura dum livro: tinha uma estante cheia. Retirou 
um romance policial, de capa amarela, bem sovado, e levou-o para a cama. Leu algumas pginas, mas o telefone, nico luxo de seu apartamento, tocou.
      Era de So Paulo, sua cidade.
      ? Ol, mano! Voc est ficando famoso. S d voc na Mundial! ? era Ivo, o irmo do meio, mais moo que ele e mais velho que Laura, a caula. Ele estudava 
Comunicaes e era considerado o prodgio da famlia; pretendia ser tambm jornalista, como Paulo.
      ? Como  que vai a vida por a?
      ? Estou tentando trabalhar nas tevs de So Paulo. Talvez engrene, mesmo antes do diploma. Voc sabe, o comeo  fogo. Pra voc tambm no foi moleza.
      ? Quem sabe eu lhe consiga uma beirada na Mundial. Dona Beatriz est por perto?
      ? Mame e Laura esto aqui com um pacote de beijinhos. Tchau.
      Paulo conversou bastante com a me e a irm, que no via h meses. Sempre sonhara com um emprego na Mundial, mas aquele ano de separao fora barra. Se no 
fosse a necessidade de ajudar a famlia, abalada com a morte do pai, teria regressado no primeiro ms.
      Desligou o telefone, mas no voltou ao livro. A televiso ia exibir o show semanal de Nina Flores, que ningum gostava de perder. O pas inteiro amava a talentosa 
e piradssima Nina Flores, jovem ainda nos seus setenta anos; o pas  exagero. As sentinelas de Petra Santana a detestavam.
      
     NINA FLORES:
     UM SHOW INESQUECVEL
     
      O show de Nina Flores era gravado parte no teatro da Mundial, parte nas locaes externas e produzido durante a semana. O produtor de Nina, Adriano, selecionava 
ambientes atrativos como viadutos, coberturas de edifcios, estaes do metr, iates na baa da Guanabara, ou gravava em helicpteros ou no bondinho do Po de Acar. 
A todos esses cenrios, ela levava seu humor, sua malcia e sua irreverncia. A prxima locao seria num parque de diverses.
      ? O que vou fazer no parque? ? perguntou.
      ? Dar um giro no trem-fantasma. Tem medo do escuro?
      ? Adoro! No escuro, ningum percebe a idade que tenho.
      A locomotiva, puxando meia dzia de vagezinhos, cada um transportando dois passageiros, percorria um tnel povoado de aranhas de barbante, morcegos de papelo, 
um esqueleto que se levantava do tmulo, um Frankenstein que parecia mostrurio de parafusos, tudo em apenas dois minutos de trajeto, bem chacoalhados em retas e 
curvas velocssimas. E, no final, um espelho para simular a iminncia dum choque de trens dentro do tnel.
      Nina viajaria com um cameraman, atento s suas cmicas reaes de susto, enquanto outro, na locomotiva, focaria os imprevistos engraados do percurso. Foram 
feitas vrias viagens experimentais para testar o equipamento. Numa delas, Nina bolou atirar uma ma na cara do Frankenstein, uma de suas idias malucas que sempre 
funcionavam.
      Muita gente estava naquela manh ensolarada no parque, embora cedo demais para que os aparelhos funcionassem. A presena de Nina em qualquer lugar era um m 
para curiosos. At atores e atrizes da Mundial que no participavam do show apareceram por l, como simples fanzocas, entre eles Luciana Rios e Milton Brs, a nova 
dupla romntica da televiso, o Prata, e muitos outros. Alguns fizeram questo de viajar com Nina no trem enquanto os tcnicos preparavam a gravao.
      ? Podem vir comigo ? permitiu a veterana. ? S espero que no aproveitem a escurido para me dar beijos. Sou uma senhora de muito respeito.
      ? As sentinelas no pensam assim ? disse um dos assistentes de produo, provocando-a.
      ? Ah, sabem? ? lembrou Nina. ? At j encomendei um quadro, para ser includo no show, em que apareo como Petra Santana. Vai ser o maior sarro! Um barato!
      ? Ela vai odiar voc! ? exclamaram.
      ? No tenho medo de caretas ? replicou a comediante. 
      Adriano, o diretor do show, deu os preparativos por encerrados.
      ? O nico problema  a luz dentro do tnel ? disse um dos cmeras.
      ? Colocarei um foco no rosto de Nina. Vai dar tudo em cima. ? E  dirigindo-se ao grupo que rodeava a estao: ? Tomem seus lugares nos vages. Viaja quem quiser. 
No pagaremos cach para figurantes, hoje.
      Os vages foram logo lotados e, a um sinal do diretor, os tcnicos tomaram posio. O trem-fantasma comeou a movimentar-se, apitando. Ingressou no tnel. 
Adriano, s pressas, entrou no caminho de gravaes externas para acompanhar o trabalho pelos monitores de vdeo. Logo esboou um sorriso, vendo nas telas as aranhas 
de barbante passando pelo rosto de Nina. Em seguida, a 
       
atriz fingiu assustar-se com os morcegos, bem focados pela cmera. O esqueleto levantou-se do tmulo; todos os passageiros gritaram. L estava o Frankenstein com 
seus mil parafusos. Nina atirou-lhe a ma. O melhor de tudo, porm, era a velocidade do trenzinho, que comprimia emoes e risadas.
      Adriano, feliz, saiu do caminho.
      ? Valeu! ? exclamou. ? Saiu tudo certinho. Agora vamos cumprimentar a rainha do riso. Ela esteve perfeita.
      Todos dirigiram-se  estao. Os passageiros deixavam os vages e alguns j se confundiam com os curiosos. Os cmeras pareciam satisfeitos e j queriam ver 
o teipe no caminho. Apenas Nina Flores no se movia do assento, ligeiramente cada para o lado.
      ? O que foi, queridona? ? perguntou Adriano. ? Est dormindo? 
      No estava. Havia uma mancha vermelha em suas costas. Luciana, que viajara no trem, vendo o sangue, desmaiou.
      
      
     MAIS UMA EDIO EXTRA
     
      No Estdio A a gravao fora interrompida para que artistas e tcnicos assistissem  edio extra, atravs dum televisor l colocado. Estavam todos alarmados, 
e alguns, ntimos de Nina, choravam.
      O doutor Reis foi o primeiro a aparecer no vdeo. No tinha muito a dizer, to chocado como os curiosos do parque. Apenas mostrou uma faca, que um dos investigadores 
encontrara numa das curvas do tnel.
      Adriano, o diretor que acompanhou a gravao pelo caminho de externas, nada vira que pudesse ajudar a Polcia. Tudo normal. Nina gritava muito quando o trem 
chegou diante do espelho, mas era o que todos os passageiros faziam.
      Luciana Rios e Milton Brs, que viajaram no trenzinho, emudeceram.
      ? O que faziam esses dois no parque? ? exclamou Daniel, o diretor da novela das oito. ? O lugar deles era aqui.
      ? No estavam escalados para esta manh ? disse um dos assistentes.
      Em seguida, via-se Paulo entrevistando o Prata.
      ? Viajou com Nina?
      ? Se viajei? Bem... eu ia viajar, mas algum me empurrou e tomou o meu lugar.
      ? Quem o empurrou?
      ? Uma mulher.
      O delegado pediu s pessoas que tinham viajado com Nina que voltassem a seus lugares nos vages. Uma mulher gorda e baixa ia afastando-se, quando os curiosos 
se manifestaram.
      ? Ela tambm estava no vago.
      Constrangida, a mulher sentou-se no vago. Parecia querer esconder o rosto.
      ? H um lugar vago, logo atrs de onde Nina estava. Quem se sentava aqui? ? perguntou o delegado.
      Evidentemente seria a pessoa que tivera a maior possibilidade de cometer o crime. Talvez a nica.
      ? Quem se sentou? ? repetiu o delegado. No foi a senhora? ? perguntou  mulher que tentara escapar.
      ? No, juro! ? ela respondeu.
      Um dos curiosos, jovem ainda, surgiu diante da cmera.
      ? Eu vi quem sentou a.
      ? Quem foi?
      ? Um punk.
      ? Punk! ? admirou-se o delegado.
      ? , um desses birutas de cabea raspada, com uma faixa de cabelos espetados, bem no meio. Assim que o trem parou na estao, ele sumiu.
      O delegado no ficou convencido.
      ? Algum mais viu o punk!
      Outros populares adiantaram-se. A cmera os focou.
      ? Eu e minha namorada tambm vimos ? disse um estudante uniformizado, que mantinha o brao ao redor dos ombros duma garota. ? Diga pra ele, Tina.
      A namorada forneceu mais detalhes:
      ? Ele vestia um bluso de couro preto. Era mais alto que baixo e devia ter vinte e poucos anos.
      ? Seriam capazes de reconhec-lo?
      ? Acho que sim ? respondeu o namorado.
      O doutor Reis, conversando com seus investigadores, deu a primeira ordem:
      ? Cacem todos os punks que puderem.
      
      
     OUTRA MENSAGEM DA TIJUCA
     E OS PUNKS NA PASSARELA
      
      Paulo Maciel lia o livro que retirara da estante. Parecia realmente bom, embora desconhecido. Era um policial, que agarrava a partir da primeira pgina. Mas 
a campainha interrompeu a leitura. Foi abrir a porta.
      ? Voc!?
      ? Por que esse espanto?
      ? E muita honra para mim! Receber o chefe do departamento!
      ? Eu ia passando. Moro aqui perto, sabia?
      ? Algum lance novo?
      ? Sim ? respondeu Miranda. ? Recebi outra mensagem.
      ? Outra?
      ? Trouxe o xerox comigo. ? Mostrou envelope e carta a Paulo. ? O original j est na Polcia.
      ? Tambm foi postado na Tijuca?
      ? Aqui est o carimbo da agncia, bem ntido.
      ? Continuam querendo incriminar as sentinelas, Miranda.
      ? No, Maciel, j temos uma provinha contra elas.
      ? No diga!
      ? Digo! Lembra-se de que havia uma senhora no trem-fantasma?
      ? Lembro, sim. Ia caindo fora para no fazer declaraes. Mas se parece tanto com a tia da gente! Deve ser maravilhosa fazendo doce de abbora.
      Miranda, que amava pilhrias, no riu.
      ? Chama-se Elisa Bastos e sabe onde mora? Na Tijuca, pertinho da casa de Petra Santana. Conversei com ela e perguntei se pertencia  Liga das sentinelas. A 
mulher engasgou, ficou amarela e disse que no. Alis, disse: "Juro que no".
      ? Estranho, no? Explicou o que fazia no parque?
      ? A ela engasgou novamente, recebeu outra mo de tinta amarela e disse que ia passando, quando viu Nina. Curiosa, seguiu-a. E quando Nina entrou no parque, 
entrou tambm.
      ? Uma f, no?
      ? E o engraado  que essa mulher to tmida, tpica dona-de-casa, que no fora l para ver a gravao, disputou um lugar no vago a cotoveladas. Foi quem 
empurrou o Prata.
      ? Ele a reconheceu?
      ? Reconheceu.
      ? O que pretende fazer?
      ? Amanh ela estar na delegacia. Aparea l e observe-a bem. Vamos ficar de olho na pea.
      ? O que ela vai fazer na delegacia?
      ? A Polcia abotoou dezoito punks.
      ? Dezoito?
      ? E vai exibi-los na passarela a algumas pessoas que estiveram no parque, para que reconheam o que viajou com Nina. Ser outro captulo muito emocionante 
de nossa novelinha. s dez.
      ? Estarei l.
      Miranda viu o livro policial sobre o criado-mudo.
      ? Parece bom, estou no comeo.
      ? Se gostar, me empreste.
      ? Tambm gosta de romances policiais?
      ? Onde pensa que adquiri minha cultura? Bom, vou indo. A equipe vai esper-lo na delegacia. Boa noite.
      Quando Miranda saa, Paulo lembrou-se de perguntar:
      ? Como voc subiu sem que me avisassem pelo interfone?
      ? Mostrei minha carteira da Mundial.  o que pretendo fazer, no Cu, quando morrer. No haver problema.
      Paulo voltou ao livro, mas no leu uma linha, pensando na mensagem. A realidade parecia-lhe muito mais aterradora que a fico policial.
      
      Os dezoito punks, todos feitos pela mesma frma, iguais no aspecto e nas atitudes, desfilaram na passarela policial, sob fortes luzes. Num pequeno auditrio, 
uma dzia de pessoas os observava. Paulo ordenou  equipe que gravasse tudo, no s os punks, como a reao dos observadores. Elisa foi a ltima a chegar e sentou-se 
na ltima fila, perto da porta. Mal olhava para os suspeitos. Quando a cmera se aproximava dela, baixava a cabea.
      Depois do desfile, os punks pararam, olhando tudo, distraidamente. O ato teatral foi curto.
      O casal de namorados foi o primeiro a manifestar-se:
      ? No reconhecemos o cara ? disse o rapaz. ? Todos os punks se parecem.
      Os demais repetiram a mesma observao.
      ? Pode ser que o tal seja um deles, mas no saberia dizer qual ? disse um homem alto, que colocara culos para ver melhor.
      Elisa Bastos foi a nica pessoa presente que no disse uma palavra; Paulo nem viu quando ela deixou a sala.


        
      Os punks, livres, puseram-se a rir, bagunando o trabalho policial. Um deles mostrou a lngua para a cmera. Outro fez um gesto obsceno. O Prata, que estava 
l, bbado como sempre, divertiu-se com a palhaada que faziam. Luciana Rios e Milton Brs ficaram juntinhos, de mos dadas, o tempo todo, como se tivessem ido l 
s para namorar.
      
      
     PEDRO VENTURA EM PERIGO
      
      Paulo voltou  emissora. Miranda o esperava. 
      ? O espetculo fracassou ? foi dizendo. ? Ningum pde identificar o punk. Realmente, no era tarefa fcil.
      ? Elisa Bastos foi?
      ? Foi, mas quase nem olhou para a turma.
      ? No a achou suspeita?
      ? Parece que no gosta de aparecer na televiso.
      ? Agora quero ver o teipe. Vamos l.
      Miranda e Paulo dirigiram-se para a tcnica, quando a porta se abriu. Era Djalma Ventura. Assustado. Parecia ter visto um dinossauro na esquina.
      ? Preciso falar com o senhor ? disse ao Miranda. ? E sobre meu tio. Est correndo perigo.
      ? O que houve?
      ? Ontem  noite, eu estava no apartamento dele quando tocou o telefone. Como ele estava no banho, atendi. Era algum ameaando. Disse que meu tio seria o prximo 
ator a morrer. S isso, e bateu o telefone.
      ? Pode ter sido brincadeira.
      ? Foi o que pensei, mas fiquei apavorado.
      ? Voz de homem ou de mulher?
      ? Era uma voz disfarada. Grossa, sim, mas podia ser de mulher.
      ? Foi seu tio que o mandou aqui?
      ? No ? respondeu Djalma. ? Quando lhe contei, no deu bola.  desses que no ligam para nada.
      ? Fez bem em vir aqui, mas ns no somos a Polcia. V procurar o doutor Reis. Quem sabe ele escale um guarda-costas para seu tio.
      ?  do que ele precisa, um guarda-costas. Eu j vou. Obrigado.
      Paulo ficou pensativo.
      ? Acho que realmente Pedro Ventura est ameaado. O criminoso s tem matado gente famosa.
      
      
      
      
      
     UMA COMDIA
     TERMINA NO INTERVALO
     
      A Polcia cuidou de proteger Pedro Ventura. Aonde ele ia, um guarda-costas ia atrs. Pedro irritou-se e passou a driblar o investigador para livrar-se dele. 
At se divertia com isso. O sobrinho, porm, traa-o, avisando a Polcia quando ele burlava a proteo. Desanimado, Djalma conversou com Miranda.
      ? Meu tio se julga um deus, invulnervel.
      ? No digo tanto ? ponderou Miranda, ? mas deve estranhar por que Deus ainda no lhe pediu um autgrafo.
      ? A Polcia est bobeando ? comentou Djalma, que no entendera a pilhria do Miranda. ? J houve dois crimes. Por que no pega logo esse homem?
      ? Porque os grandes detetives s existem nos romances policiais e no cinema ? disse o jornalista. ? Sherlock Holmes, Hercule Poirot, Sam Spade, todos feitos 
de papel e tinta.
      
      Dez dias aps o assassinato de Nina Flores, aconteceu. O contra-regra da pea teatral em que Pedro Ventura trabalhava, estranhando que o ator no saa do camarim 
para o segundo ato, foi bater  porta. Fechado. Bateu em seguida nos camarins de Ldia Montes e Marco Nani, tambm atores da pea. Ele no estava com os colegas. 
O segundo ato ia comear. Resolveram arrombar a porta do camarim.
      Pedro estava sentado diante dum espelho. s costas, uma enorme e crescente mancha de sangue. Morto.
      Quase ao mesmo tempo chegaram o doutor Reis e a equipe da TV Mundial. Os dois atores tinham tanta informao a dar quanto o contra-regra e o iluminador: nenhuma.
      ? No ouvi nenhum grito durante o intervalo ? disse Marco.
      ? Ningum foi ao camarim dele? ? perguntou o delegado.
      ? Pedro detestava que entrassem em seu camarim nos intervalos. Dizia que prejudicava a concentrao.
      ? Viram algum suspeito circulando por a?
      ? O pblico s vem aos camarins aps o espetculo. Nos intervalos, apenas amigos ntimos.
      ? Hoje viu algum?
      ? No ? respondeu Marco. ? Voc viu, Ldia?
      ? No intervalo a gente se fecha no camarim e no presta ateno se h gente no corredor.
      ? H uma sada nos fundos?
      ? Sim,  a que ns usamos. D para a ruazinha ao lado ? informou Marco.
      ? H algum porteiro?
      ? No, ns a fechamos  chave.
      O delegado foi at os fundos. A porta no estava fechada  chave.
      ? O criminoso deve ter penetrado por aqui.
      ? s vezes esquecemos de fechar.
      ? Ele deve ter esperado essa vez ? comentou o delegado. Ento todos ouviram uma choradeira dramtica. Era Djalma Ventura, cercado por pessoas que tentavam 
consol-lo.
      ? Sinto-me culpado ? dizia. ? Vinha todas as noites para proteg-lo. No o largava um minuto. Hoje no vim.
      ? No se sinta culpado ? disse o delegado. Meu investigador tambm deu mancada. Achou que aqui ele estava muito seguro e relaxou.
      Comentrios inteis. Todos sabiam que, se no fosse no camarim, o assassinato teria se dado noutro lugar.
      ? Estou cansado de ver sangue ? declarou Paulo ao Miranda. ? Por que no me escala para entrevistar doceiras, coroinhas e guardinhas de automveis?
      
      
     PAULO MACIEL V UMA LUZ
     
        Paulo Maciel voltou  quitinete lembrando que, j com um ano de Mundial, tinha direito a frias. Seu substituto que descascasse aquele abacaxi sangrento. 
Farto at de assistir televiso, pegou o romance policial na gaveta do criado-mudo e recomeou a l-lo, da primeira pgina. No parou nem para tomar gua. Concluiu 
a leitura na madrugada. Mas no dormiu imediatamente. Ficou a pensar no enredo. Apagou a luz bem mais tarde. Sem pregar os olhos, acendeu-a outra vez. Releu as ltimas 
pginas do romance. Descobriu ento que perdera o sono definitivamente.
      Paulo entrava na Mundial e viu Renata estacionando seu fusca verde.
      ? Alguma novidade, Maciel?
      ? Da parte da Polcia, no.
      ? E da parte de vocs?
      ? Acho que estou vendo uma luz... ? disse Paulo.
      ? Descobriu alguma coisa?
      ? Depois a gente conversa.
      O dia inteiro o assunto foi Pedro Ventura. Paulo teve de fazer entrevistas no velrio e no enterro. Voltou exausto para o apartamento e sem ter podido falar 
com Miranda. Releu o livro, de ponta a ponta.
      Miranda conhecia Paulo muito bem. Sabia quando ele estava encucado. No dia seguinte, perguntou-lhe na redao:
      ? Voc est usando uma cara estranha. O que fez com a outra?
      ? Se prestar ateno, ver que esta  mais inteligente.
      ? E mais preocupada. Qual  o grilo? 
      Paulo, prudente, deu s uma dica:
      ? Sobre os assassinatos. 
      ? Sim?
      ? Tenho uma teoria.
      ? Pode contar, direi se ela cola.
      ? Agora, no. Ainda estou ruminando, vendo se tem buracos.
      
      
     FALANDO COM O CRIMINOSO
     
      No telejornal daquela noite, estando Paulo no estdio, Miranda resolveu fazer uma provocao diante das cmeras. Era para manter o assunto vivo, no deixar 
a peteca cair.
      ? Aparentemente, as coisas esto no marco zero ? disse. ? Mas talvez tenhamos novidades para breve. Pelo menos  o que promete nosso coleguinha, o talentoso 
Paulo Maciel. Ele possui um monto de romances policiais e sabe como os enigmas funcionam. ? E dirigindo-se ao reprter: ? Paulo, no quer ao menos erguer uma pontinha 
do mistrio?
      Paulo, que no ia participar do noticirio, foi apanhado de surpresa. A luzinha vermelha acendeu para ele.
      ? No ainda ? disse Paulo, confuso. ? Eu no sou do ramo, preciso confirmar minhas suspeitas.
      ? Diga ao menos se  homem ou mulher...
      ? E melhor manter o suspense...
      ? Mas quando vai soltar seu co de fila? ? perguntou Miranda, fazendo o assunto render.
      Paulo olhou firme para a cmera.
      ? Amanh, quem sabe.
      ? Supe que a pessoa esteja nos vendo?
      ? Suponho que sim ? disse Paulo, olhando para a cmera com mais determinao. ? Espero que nem pense em fugir. Sua fuga seria sua confisso. Uma pssima noite 
para voc!
      Fim do noticioso. Miranda agarrou Maciel.
      ? Agora, conte. Ningum est vendo.
      ? S coloquei a bola na rea, amanh eu chuto. Cedinho estarei aqui para lhe expor a teoria.
      ? Certo. Meu corao agenta. S tive trs enfartes. 
      
      
     UMA CORPO QUE SOBE E DESCE
     
      Paulo, pegou seu carro e saiu pela noite. Num restaurante que freqentava, perguntou pelo Prata. Mas no jantou. Tambm foi visto perguntando pelo Prata num 
bar que ele freqentava, no Leblon. Algum o teria visto com outra pessoa no carro; porm, quando retornou ao restaurante, s para dar uma espiada, estava s.
      Chegando ao Leme, Paulo desceu com o carro para a garagem do edifcio, muito escura. Sempre era lenta a tarefa de estacion-lo em sua vaga, a 22, quase imperceptvel 
entre tantos automveis. Desceu do carro e dirigiu-se ao elevador de servio. Apertou o boto.  noite, sempre esperava muito. Teria ouvido passos? Visto algum 
se aproximando? Viu a luz do elevador, abriu a porta e entrou. Foi quando o atacaram pelas costas.
      Algum tempo depois, uma empregada domstica do 9 andar chamou o elevador de servio. Ao abrir a porta, viu o corpo cado, ensangentado, e gritou. Acordou 
o andar inteiro. O mesmo choque sofreu um homem, embriagado, que chamou o elevador tambm da garagem. E um inquilino idoso, que ia descer para pegar seu carro,  
procura de farmcia.
      O corpo subiu e desceu inmeras vezes no elevador, pela madrugada, at a chegada da Polcia. Dessa vez, no coube a Paulo Maciel fazer a reportagem.
       
      
        
      
      
      
      
      
      
      
       
       
      
     PAULO MACIEL, VIVO?
      
      Miranda estava em sua sala na TV Mundial, escrevendo  mquina, quando ergueu casualmente a cabea e levou um grande susto. Que era aquilo? Paulo Maciel ressuscitara?
      O rapaz que surgira timidamente diante de sua mesa era realmente parecidssimo com Paulo, embora mais jovem.
      ? Ah, voc  o irmo de Paulo. Recebi sua carta. Como  mesmo seu nome?
      ? Ivo.
      ? Em que hotel est hospedado?
      ? Se conseguir o emprego, morarei na mesma quitinete de Paulo. J est tudo arranjado.
      ? Falei com o homem l de cima ? disse Miranda, referindo-se a quem mandava na emissora. Ele concordou com uma experincia de trs meses.
      Ivo esboou seu primeiro sorriso no Rio.
      ? Quer dizer que me aceitam?
      ? Vai depender de voc. Estuda Comunicaes, no?
      ? Estudo, e vou continuar estudando aqui no Rio.
      ? Fez o Servio Militar?
      ? Este ano.
      ? Vou lev-lo ao Vadeco, do Departamento de Recursos Humanos. Ter que assinar uma montanha de papis.
      ? Quando comeo?
      ? Hoje  quinta, comece na segunda. Esteja aqui s nove. Espero que goste do Rio.
      ? Creio que gostarei, apesar do calor.
      ? Calor? Estamos no inverno. Venha comigo.
      
      
     O PRIMEIRO SUSTO DE UM NOVATO
      
      Ivo, que deixara sua mala na portaria do edifcio onde Paulo morou, voltou para l mais tranqilo. O porteiro entregou-lhe a chave do apartamento.
      ? E no stimo, o 71.
      ? Est tudo limpo?
      ? A faxineira esteve limpando-o hoje cedo. Ela trabalhava para seu irmo, duas vezes por semana. Quer que ela continue?
      ? Quero, sim.
      Ao girar a chave e abrir a porta do 71, Ivo sentiu um arrepio longo e gelado. Entrou, tudo escuro. Correu lentamente a cortina. Mveis, apenas os essenciais. 
Nas paredes, psteres de velhos atores do cinema: Buster Keaton e o Gordo e o Magro.
      Ivo discou para So Paulo e falou com sua me, dona Beatriz.
      ? Me, j estou instalado no apartamento.
      ? Quando vai  Mundial?
      ? Voltei de l agora. O emprego est garantido. O tal Miranda  um pai.
      Dona Beatriz, comovida demais, passou o telefone para Laura, dois anos mais moa que Ivo.
      ? Ento, deu p?
      ? Estou numa boa.
      ? Espero que no se esquea daquilo ? advertiu Laura.
       Quando Ivo decidiu pleitear o emprego no telejornal, para ajudar a me, viva, e a irm, em apuros financeiros com a morte de Paulo, Laura fez um pedido que 
exigia um juramento: no descansar enquanto no descobrisse quem matara o irmo.
      ? Ainda nem vi uma cmera, preciso me entrosar primeiro.
      ? Entrose-se, mas no se esquea. Tchau.
      Ao desligar o telefone, Ivo sentiu-se estreando uma sensao nova: a solido. Estava numa cidade que desconhecia e onde ningum o conhecia. Como preencher 
o tempo at segunda-feira? Fazia-se essa pergunta quando levou um susto. A maaneta da porta! Algum tentava entrar no apartamento. Num salto, ps-se de p e foi 
espiar pelo visor: escurido total no corredor. Hesitava se abria ou no a porta, quando tocaram a campainha. Enganchou a corrente de proteo no batente e, sem 
expor o corpo, abriu a porta.
      
      
     A CONTINUSTA
     
      ? Ol! ? exclamou uma voz feminina.
      ? Quem ?
      ? Voc  o irmo de Paulo Maciel?
      ? Sou.
      ? Posso entrar? Tambm sou da Mundial. Soube agora de sua chegada.
      Ivo destravou a corrente e uma moa entrou. Era uma moa de sua idade, loura, elegante, e linda, linda, linda! Alguma namorada de Paulo. Mas continuava desconfiando.
      ? Por que girou a maaneta antes de tocar a campainha?
      ? No conseguia encontrar o interruptor. Que escuro! Queimou a luz do corredor?
      ? Neste prdio velho nada deve andar bem.
      ? Disseram-me que j est empregado. Parabns!
      ? O que faz l? Atriz?
      ? Eu, atriz? ? riu a moa.
      ? Por que no? Duvido que a Mundial tenha atrizes mais bonitas.
      ? Que  isso? Chegou hoje e j paquerando? 
      Desajeitado, Ivo recuou.
      ? Oh, desculpe-me. Que tal  sua funo l?
      ? Continusta de novela.
      ? O que  isso?
      ? Anoto a posio dos artistas, a roupa e o penteado que usam no final das cenas ? explicou a moa. ? Entendeu?
      ? No.
      ? Voc j observou que s vezes um artista est com uma roupa e, ao passar para outro cenrio, est vestido de outra maneira? A continusta evita esses enganos, 
anotando tudo. Um trabalho que parece simples, mas exige a mxima ateno.
      Ivo relaxou, gostando do jeito descontrado da moa.
      ? Obrigado por ter vindo me visitar. Os cariocas so sempre gentis assim?
      ? No vim apenas para conhec-lo ? disse a continusta, sria, dessa vez.
      ? No? Veio para qu?
      Ela fez uma pausa e informou:
      ? Meu nome  Renata Rocha.
      ? Parente de Fbio Rocha, o ator que...
      ? Irm.
      ? Temos algo em comum ? disse Ivo. ? Nossos irmos foram assassinados,  e provavelmente pela mesma pessoa.
      O motivo da visita:
      ? Seu irmo dizia que tinha uma pista. Sabe, por acaso, qual era?
      ? A mim, no disse. Pouco conversvamos, e quase sempre pelo telefone.
      ? J examinou tudo que pertencia a ele? Jornalistas costumam fazer anotaes.
      ? Cheguei neste momento. Quem sabe, neste criado-mudo... ? E abriu a gaveta do mvel. Retirou uma agenda.
      ? Endereos. Isso pode interessar.
      Ivo folheou a agenda, logo se decepcionando.
      ? Telefones da Mundial, de jornais, livrarias, oficinas de conserto...
      ? Nenhum endereo pessoal? ? perguntou Renata, aproximando-se.
      ? O da casa de Miranda ? verificou Ivo ? o seu, de amigos de So Paulo e, por ltimo, o de Petra Santana. Por falar nela, ainda existe a tal Liga?
      ? Mais ativa do que nunca. O que h mais na gaveta?
      Ivo enfiou a mo na gaveta e retirou duas canetas esferogrficas. E um velho romance policial, de pginas soltas e amarelecidas.
      ? Paulo era apaixonado pela fico policial. Devia estar lendo esse livro, quando o mataram.
      Renata, desanimada, caminhou at a porta. J tocava na maaneta, quando perguntou:
      ? Tem amigos aqui no Rio?
      ? Ainda no me apresentaram nem ao Cristo Redentor.
      ? Quer jantar comigo?
      Ivo sorriu. Era seu dia de sorte?
      ? Claro!
      ? Passo s nove. O meu  um fusquinha verde. At.
      
      
     NAMORO OU ALIANA
     
      Pouco antes das nove, Ivo j aguardava Renata diante do edifcio. Uma pergunta descera no elevador com ele: Renata teria sido namorada de Paulo? Pergunta que 
repetia a cada minuto de espera que passava. Ela teria esquecido o compromisso?
      Afinal, o fusquinha verde.
      ? Desculpe a demora. O trnsito...
      Ivo entrou no carro com a pressa de quem temesse perder o nibus. Puxa! Renata ficava mais bonita  noite. E como se vestira bem para o jantar!
      
      Foi um jantar de novela, ao ar livre, num restaurante do Leblon que dispunha parte das mesas sobre a calada, o predileto dos artistas do Rio.
      ? Nina Flores vinha aqui freqentemente ? lembrou Renata.
      ? Quem so aqueles? ? perguntou Ivo olhando para uma mesa prxima. ? Parece que os conheo.
      ? Luciana Rios e Milton Brs, o que substituiu Fbio na novela. Ela morava com o mano, mas, como se v, esqueceu-se depressa.
      Ivo continuou a olhar pelas vizinhanas.
      ? E o velhinho que est sozinho na mesa? Tambm  ator, no?
      ?  o Carlos Prata. A moa que se aproximou da mesa dele  Sandra Lia, que tambm foi namorada de Fbio. Luciana lanou suspeitas sobre os dois.
      ? Acha que o criminoso freqenta este restaurante?
      ? Pode ser que sim.
      ? Desconfia de algum?
      ? s vezes desconfio de todos.
      ? Voc devia gostar muito de Fbio, nota-se.
      ? No era dos que ajudam os velhinhos a atravessar a rua, mas tinha meu  sangue e me arranjou o emprego na Mundial.
      Uma pergunta maneirosa:
      ? E com meu irmo, voc se dava bem?
      ? No ramos namorados, se  que quer saber. Mas lamento no termos sido mais ntimos. Ele teria me contado o que foi que descobriu.
      ? Voc pensa o tempo todo nisso, no? Nunca tenta esquecer o que houve?
      A mo de Renata cobriu a de Ivo sobre a mesa.
      ? No posso ficar sozinha nessa luta, Ivo ? disse ela, em tom profundo. ? Minha cabea est pegando fogo. No consigo pensar com clareza. ? E pediu, suplicou: 
? Ajude-me. Vamos trabalhar juntos. Eu perdi Fbio, voc perdeu Paulo. Se no nos aliarmos, o assassino jamais ser apanhado.
      
      
     ROUBAR O QU? NA QUITINETE?
     
      ? Gostou da quitinete? ? o porteiro do edifcio perguntou a Ivo no dia seguinte.
      ? Se eu fosse gordo teria de alugar duas.
      ? J levei a televiso para l.
      ? Televiso?
      ? Seu irmo tinha mandado para o conserto. No a levei antes porque houve uma tentativa de assalto. Achei mais prudente esperar que o senhor chegasse.
      ? Tentativa de assalto? Quando?
      ? Faz uma semana. Eu estava no stimo quando vi um cara diante de sua porta. Quando me viu, escapou pela escada.
      ? Como era o tipo?
      ? Um desses rapazes de cabea raspada. Vestia uma jaqueta preta.
      ? Um punk! ? perguntou Ivo, lembrando que um punk viajara com Nina Flores no trem-fantasma, segundo o noticirio da poca.
      ? Sim,  assim que os chamam. Um punk.
      Ivo subiu  quitinete e fez nela uma revista geral. O que havia l para ser roubado? A geladeira?
      
      
     IVO FICA CONHECENDO O DOUTOR REIS
     
      O doutor Reis mandou Ivo entrar.
      ? Sou irmo de Paulo Maciel.
      ? Nem precisava dizer, parecem gmeos.
      ? Mudei para o Rio e estou morando no mesmo endereo de Paulo.
      ? Tambm jornalista?
      ? Estou tentando.
      ? Posso ser til em alguma coisa?
      Podia. Ivo falou do provvel ladro que tentara entrar no apartamento.
      ? O Rio est cheio de ladres.
      ? Mas era um punk ? informou Ivo. Quem sabe o mesmo que matou Nina Flores. O que no entendo  o que pretendia roubar. Estive pensando... quem sabe algo que 
o comprometesse. O que a Polcia retirou do apartamento? Agendas, anotaes, fitas gravadas, algo assim?
      ? No retiramos nada do apartamento. S levamos o carro para recolher impresses digitais. Foi entregue ao juiz. Logo ter notcias dele.
      ? Mas o punk se arriscaria assim, por nada?
      ? Pode ter sido outro punk. Ainda estamos trabalhando no caso. No ponha a mo nessa ratoeira. Seu irmo ainda estaria vivo se no tivesse se metido. Pobre 
rapaz!
      
      
      
     O FAQUEIRO DE DONA PETRA
     
      O ch era til para reunir as sentinelas, mas um bom almoo mensal consolidaria definitivamente a entidade. Grande idia! Petra abriu seu faqueiro, relquia 
da famlia. Haveria talheres para toda a diretoria? Pareceu-lhe que sim, porm, ao fechar a preciosidade domstica, notou que alguma coisa estava faltando. Onde 
estavam as Trs Marias, as agudssimas e cortantes facas, to teis na cozinha? No faqueiro no estavam. Procurou-as nas gavetas da copa e da cozinha. Nada.
      Precipitadamente ou no, Petra tirou uma concluso:
      ? Roubaram minhas queridas facas! Mas quem?

     O GAROTO DAS AMENIDADES
     
      Ivo e Renata passaram quase todo o fim de semana juntos; ela mostrando-lhe o Rio.
       
      
      ? Voc mora sozinha?
      ? Com uma tia ? respondeu Renata.
      ? Ela sabe que saiu com um rapaz que acaba de chegar de So Paulo?
      ? Sabe, ela  legal.
      ? Como se chama?
      ? Jlia ? disse Renata depois de hesitar um pouco. ? Mas o que fez hoje cedo?
      ? Fui  delegacia ? respondeu Ivo, contando-lhe em seguida o caso do punk.
      ? Ivo! Isso confirma que h um punk metido na histria. Pense nisso, Ivo, pense bastante.
      ? No consigo ? respondeu Ivo. ?  Amanh estreio na Mundial. Meu primeiro emprego. E estou morrendo de medo de enfrentar uma cmera.
      Segunda-feira, s nove, Miranda j esperava pelo novato.
      ? Vamos pegar o carro de reportagem no ptio. Vou junto para dar uma fora. Nervoso?
      ? Apenas tremendo dos ps  cabea. O que vou fazer?
      ? Entrevistar um camel, no Lido. Um marreteiro diferente dos outros. Cascateia em ingls, francs, castelhano e at em alemo. Lances assim, engraados, adoam 
o telejornal.
      Quando o carro de reportagem estacionou no Lido, Ivo viu logo o camel, um baixinho eltrico. Mas logo se via que no era poliglota coisa alguma. Fingia conhecer 
idiomas.
        A equipe tcnica preparou-se, deu o sinal, e Ivo chegou-se ao vivaldino.
      ? Onde aprendeu tantas lnguas,  da praa?
      ? Fui marinheiro.
      ? No Titanic?
      ? Esse mesmo. Belo navio. Eu lavava o casco com gua mineral e sabonete perfumado. Um luxo s!
      ? Pena que naufragou no comeo do sculo.
      A cmera focou alguns curiosos que entenderam a graa e riram. Miranda ergueu o polegar, aprovando. O tom s podia ser aquele: gozao.
      ? Sim... naufragou ? disse o camel, como se lembrasse. ? Nadei at a praia.
      ? Uns dois mil quilmetros.
      ? E ainda levei comigo uma velhinha que estava se afogando.
      ? Que tal,  da praa, se transssemos o resto do papo em alemo?
      ? E comigo mesmo ? disse o fajuto, inventando um idioma, que tanto podia ser alemo quanto grego.
      Ivo, sentindo que deslanchava bem, comeou tambm a imitar alemo, num dilogo muito vivo, que terminou num abrao sob gargalhadas gerais.
      ? Comeou com o p direito! ? exclamou Miranda. ? Amanh vamos entrevistar um tocador de realejo. Um dos ltimos que sobraram na cidade. Voc vai ficar como... 
"O garoto das amenidades"!
      
      
     SO PAULO NA LINHA
     
      A me de Ivo ao telefone:
      ? Filho, voc estava lindo! Que entrevista levinha! O Paulo devia ter feito assim...
      Laura:
      ? Estava lindrrimo, Ivo. Com mais pinta que o tal Milton Brs. Mas diga uma coisa: vai continuar nessas?
      ? Calma, mana, comecei hoje.
      ? No acha que aquele velhote, o Prata, matou todos?
      ? Por qu?
      ? Porque  o assassino, ora!
      ? Laura, sabe quanto custa um minuto de ligao So Paulo-Rio? Tchau.
      Ivo largou-se na cama. Paulo s fizera reportagens importantes, quentes, e ele era o garoto das amenidades. O criminoso talvez estivesse rindo dele.
       
      
     NOVA VISITA  CASA DE PETRA SANTANA
     
      Petra Santana esperou Marinalva, a empregada, sair para as compras e entrou no quarto dos fundos. Um minuto depois, tendo aberto todas as gavetas, voltava 
para a sala, arrependidssima. Marinalva era honestssima, o que vinte anos de trabalho naquela casa comprovavam.
      A empregada chegou da rua com uma cesta cheia.
      ? Lembra-se daquelas facas, as Trs Marias? Desapareceram do faqueiro.
      ? No esto na cozinha?
      ? No esto em parte alguma.
      Um resto de desconfiana pairava no ar.
      ? Quer revistar o meu quarto?
      ? Est doida, Marinalva? Voc  a pessoa em que mais confio no mundo.
      
       
       
      
     ELES NO ESTO SOZINHOS NA LUTA
     
      Depois do tocador de realejo, Ivo entrevistou o proprietrio dum antigo cinema que ia ser demolido. H meio sculo que exibia filmes; com lgrimas nos olhos, 
disse que, sem sua tela, a vida perderia a graa para ele. At o cmera se comoveu. Em seguida, uma reportagem engraada com um nordestino, varredor de rua, que 
ganhou milhes na loteca.
      ? O que vai fazer com essa bolada?
      ? Comprar uma casinha.
      ? Com esse dinheiro poderia comprar uma rua toda, sabia?
      ? Sei, mas no espalhe, por favor, seno acabo perdendo o emprego.
      Miranda aprovou as entrevistas.
? O perodo experimental acabou. Voc j  dos nossos, garoto. Certa tarde, ao sair da emissora, algum deteve Ivo pelo brao.
      ?  o irmo do Paulinho?
      ? Sou.
      ? Meu nome  Djalma Ventura, sobrinho de Pedro Ventura. Vamos a um caf?
      O sobrinho do grande ator assassinado era um homem duns trinta anos, magro e abatido. Ainda no se recuperara do infortnio.
      ? Tenho notado que a turma da Mundial j no toca mais no caso. Nem todos so como Paulo. Este tinha garra. Quando anunciou que encontrara uma pista, eu e 
Valria nos entusiasmamos.
      ? Quem  Valria?
      ? Noiva de tio Pedro. Poucos sabiam que ia casar. Pedro no gostava de badalaes. Coitada! No suportou viver mais aqui, voltou para o Tringulo Mineiro, 
sua terra.
      ? Djalma, lembra que havia um punk no parque onde Nina foi assassinada? Pois saiba que um punk tentou entrar em meu apartamento, que  onde Paulo morava. Isso 
aconteceu antes de eu chegar. Falei com a Polcia, mas no deram muita importncia ao fato.
      ? Ah, a Polcia! ? exclamou Djalma com desprezo. ? Para ela nada  importante. Pode ser que o punk tenha tentado entrar no apartamento para apanhar alguma 
prova. Examinou bem o lugar?
      ? Sim, mas no encontrei nada comprometedor.
      ? D-me seu endereo. Quatro olhos enxergam mais que dois. Gostaria de fazer uma revista minuciosa. De acordo?
      ? Estava precisando de algum como voc. Vou dar-lhe telefone e endereo.
      
     VISITA  LIVRARIA
     
      Ivo e Renata passaram a encontrar-se todas as noites, j que na emissora no havia tempo para papos. Com ela, Ivo aprendeu a gostar de teatro, a paixo da 
continusta. Mas de livros ele entendia mais. Deu-lhe uma lista de romances de primeira categoria.
      ? No d para comprar - disse ela. - Sabe quanto ganho na Mundial?
      ? Venha comigo. H um sebo aqui perto, livraria de livros usados. Paulo era um grande freqentador.
      No sebo, um homem idoso, vestindo palet de pijama, os recebeu. Uma surpresa para Ivo.
      ? O senhor no  reprter da Mundial?
      Era o primeiro telespectador que o reconhecia. Boa sensao.
      ? Sou Ivo Maciel, e esta  Renata Rocha, continusta.
      ? Paulo Maciel no era seu irmo? Conhecia-o. Ele vinha sempre aqui. Grande leitor de livros policiais.
      ? No apartamento h uma estante cheia deles. Veja se tem os livros desta lista.
      A sada, Renata levava uma pequena pilha de livros usados.
      ? No posso sair esta noite ? disse. ? Titia est dodi.
      ? Creio que nem eu poderia. Djalma talvez v me visitar.
      ? Djalma Ventura?
      ? Conhece-o?
      ? Superficialmente. Ivo, ele pode ajudar-nos muito! Est bastante ligado nesse caso.
      ? Notei isso. Ns trs ainda vamos caar a fera.
      ? Ele  como ns, desses que vo at o final.
      ? Um abrao  titia. Diga que um dia pinto l.
      
      
      
     ALGUM TRAI AS SENTINELAS
     
      Marinalva traa Petra Santana e sua Liga. Traa de segunda a sbado. A noite, sozinha em seu quarto, assistia a todas as novelas, mas sem cronometrar beijos 
e abraos. Pelo contrrio, vibrava com cenas de amor.
      ? A senhora viu o beijo que Milton deu ontem na Luciana?
      ? Durou vinte e nove segundos ? disse Petra. ? Mas se no fosse nossa campanha, duraria quarenta. Ainda vou acabar com eles.
      Marinalva mudou de assunto:
      ? Quando a senhora vai oferecer o almoo?
      ? Com o desaparecimento das facas me esqueci dele...
      ? Estive pensando, dona Petra. No entrou aqui nenhum vendedor?
      ? Vendedor recebo na porta.
      ? Eu sei que entrou algum ? garantiu Marinalva, ? mas no consigo me lembrar...
      
      
     UM HOMEM QUE CHORA
     
      Djalma Ventura foi pontual. Chegou na hora marcada e com a maior disposio. Desde a entrada, foi esquadrinhando tudo com olhares rpidos e agudos.
      ? O apartamento  s isso?
      ? Decepcionante para quem pensa que a tev paga fortunas.
      ? J morei em lugares piores.
      ? Nunca tentou a profisso de seu tio?
      ? Tentei, mas no nasci para ator. A profisso exige talento e perseverana. Posso ter a primeira qualidade, mas no a segunda. Ao trabalho?
      ? Comecemos pelo banheiro.
      Djalma s espiou, no havia nada para ver, a no ser um armrio embutido. L, Ivo encontrou algumas roupas de Paulo, que deu aos porteiros.
      ? Revistou antes os bolsos?
      ? Encontrei apenas lenos.
      Ivo no acreditou que os investigadores houvessem revistado o apartamento com a mesma ateno. Djalma remexeu tudo. Ps-se a retirar os livros da estante.
      ? No se assuste, tornarei a colocar todos em seus lugares.
      ? Quer espiar debaixo do colcho?
      ? Por que no? Vamos levant-lo.
      No faltava mais nada. Faltava, sim. O criado-mudo.
      ? Esta gaveta j abri muitas vezes. ? Ivo foi jogando tudo sobre a cama. ? Uma agenda, canetas esferogrficas e um livro velho.
      Djalma olhou o romance com certa repugnncia.
      ? Parece o paraso das traas.
      ? E o que meu irmo estava lendo, tinha retirado da estante. Que pssimo estado! Nem sei se vai dar para ler.
      Djalma, que entrara esperanoso, mostrou-se deprimido. Largou-se numa cadeira.
      ? Conheceu meu tio?
      ? Eu o vi representar uma vez, em So Paulo.
      ? Era um grande homem ? disse Djalma com amargor na voz. ? Uma pessoa como poucas. Nunca prejudicou ningum na vida e ajudava qualquer um que precisasse dele. 
Principalmente artistas em comeo de carreira ou j na decadncia. No tinha o menor apego pelo dinheiro. S fazia o bem... Quantas vezes me tirou de apuros ? confessou, 
iniciando um pranto descontrolado e cheio de lgrimas.
      Ivo presenciava a cena embaraado. Djalma continuava a chorar, tentando dominar-se em vo.
      ? A Polcia ainda apanhar o criminoso ? disse Ivo, como se para consol-lo.
      ? No acredito ? gemeu Djalma. ? Ela no fez nada ainda. Se vamos esperar por esses tiras...
      ? Voc no est nessa sozinho. Eu e Renata estamos nos mexendo e no vamos abandonar a luta. Ainda haveremos de chegar no ponto em que meu irmo chegou.
      Djalma enxugou as lgrimas num leno.
      ? Perdoe-me a choradeira ? balbuciou envergonhado. ? No deu para segurar. Vou lhe deixar meu endereo ? disse, entregando a Ivo um carto. 
      ? Entre em contato comigo, se descobrir alguma coisa. ? Encaminhou-se para a porta. ? Boa noite, amigo ? e saiu de cabea baixa.
      Ivo, deprimido com a cena, largou-se na cama. O telefone tocou: Renata.
      ? A Ligue a televiso e veja o jornal das onze.
      ? O que houve?
      ? Esto anunciando novidades. Beijo.
       
     JACK LIMO FAZ UMA DESCOBERTA
      
      A notcia comeou com imagens de praia, o trecho onde o corpo de Fbio fora encontrado. Depois, surgiu um sorveteiro apelidado Jack Limo, popular entre os 
banhistas do Leblon.
      ? Onde encontrou a arma? ? perguntou-lhe o reprter da Mundial.
      ? Aqui ? mostrou Jack Limo, ? enterrada na areia at o cabo. Vi uma coisa brilhando ao sol, me abaixei e fui puxando. Como sabia do crime, avisei a Polcia.
      Cortando para a delegacia, o teipe mostrava o doutor Reis diante duma mesa sobre a qual havia duas facas iguais. Exibiu-as  cmera.
      ? Vejam, a que Jack Limo encontrou  igual a que foi jogada no tnel do trem-fantasma. A prova cabal de que quem matou Fbio matou Nina. Apenas no sabemos 
se, para matar Pedro Ventura e Paulo Maciel, o criminoso usou o mesmo tipo de arma.
      ? Que armas so essas? ? perguntou o reprter. ? Alguma peculiaridade?
      O delegado aproximou-se mais da cmera.
      ? Eu nem chamaria isso de arma. So facas comuns nos faqueiros antigos. No geral, formam um jogo de trs.
        Petra Santana assistiu ao noticirio e quando terminou estava com dois imensos olhos. As facas mostradas na TV eram, sim, as que haviam desaparecido do seu 
faqueiro. Nenhuma dvida. Levantou-se e com ps de veludo foi ao quarto da empregada. Abriu dois dedos de porta: tudo escuro. Marinalva dormia. Melhor assim.
      
      
     REUNIO NO ESTDIO A
     
        Ivo notou um movimento estranho na redao. Aproximou-se de Miranda, que, agitado, segurava uma folha de papel.
      ? Que foi?
      ? O homem outra vez, garoto. Leia.
      Apenas uma linha escrita com letras de frma vermelhas: Aguardem a prxima atrao. No envelope sobre a mesa, via-se o carimbo da agncia da Tijuca.
      ? O que vai fazer, chefe?
      ? J tiramos cpia. Esta vai para o doutor Reis. Eu mesmo levo. Mas aqui o trabalho no vai parar. O que h na pauta para voc, garoto?
      ? Vou entrevistar um homem que se comunica com parentes e amigos com pombo-correio.
      ? Deve ser a nica pessoa no Rio que no se queixa de atraso da correspondncia. Chispe.
      No corredor, Ivo encontrou Renata, apressada com sua prancha de continusta.
      ? Sabe da ltima? Chegou mais uma mensagem.
      ? No queria estar na pele de nenhuma atriz famosa ? disse ela.
      Ivo fez o possvel para manifestar bom humor durante a entrevista. O tema ajudava. No entanto, no foi fcil, depois de ter lido a mensagem. Quem morreria 
agora?
      A cmera focou o pombo voando sobre os telhados.
      ? Para onde ele vai? ? perguntou Ivo.
      ? Para a Tijuca ? respondeu o dono do pombo-correio.
      "Provavelmente passar sobre a casa do assassino", pensou Ivo.
      Ao voltar  emissora, Ivo soube que o doutor Reis estava l e que ele e Miranda haviam reunido todos os artistas no Estdio A. At artistas de outras emissoras, 
e os que trabalhavam apenas em teatro ou apenas em cinema estavam presentes. O clima era opressivo. Ivo e Renata entraram juntos.
      Miranda tomou a palavra sem sua costumeira inteno de fazer piada.
      ? Como vocs sabem, os crimes tm sido precedidos por avisos iguais, com a frase que a Mundial repete em todos os intervalos: Aguardem a prxima atrao. E 
acaba de chegar mais um ? disse Miranda dramaticamente, mostrando a carta. ? No queremos criar pnico, mas um grande perigo ameaa vocs. E  sobre isso que o doutor 
Reis, o delegado que cuida do caso, vai falar. Peo toda ateno.
      O delegado no estava muito  vontade; as promessas feitas pela Polcia no haviam sido cumpridas. Trs meses aps o primeiro assassinato, nenhuma pista positiva 
ainda.
      ? Estamos encontrando muita dificuldade ? foi admitindo. ?  sempre assim quando se lida com dementes. Mas nossa obrigao  tambm a de evitar novos crimes, 
o que s podemos conseguir com a colaborao de todos. Miranda garantiu que aqui na Mundial desconhecidos no entram. Nos camarins de teatro e estdios de cinema 
o mesmo rigor foi estabelecido. Mas vocs no trabalham o dia inteiro; portanto, as precaues no devem se limitar aos locais de trabalho. Os cuidados devem ser 
estendidos s ruas e s suas prprias casas. Evitem sair sozinhos, mesmo de automvel. Estando em suas casas ou apartamentos, no abram a porta antes de identificar 
a pessoa que os procura. E, sobretudo, desconfiem de estranhos que se aproximam com ou sem pretexto.
      ? Fale dos punks! ? lembrou Miranda.
      ? Ah, sim, os punks! Creio que todos sabem que um desses tipos de cabea raspada viajou com Nina no parque de diverses. E recentemente um punk tentou invadir 
o apartamento de Paulo Maciel, agora ocupado por seu irmo. Se um desses indivduos se aproximar, olho aberto. Podem estar diante do assassino.
      Os artistas ouviam atentos; nem o diretor deles, Daniel, j obtivera tanta concentrao e silncio.
      Miranda acrescentou uma informao importante:
      ? Vamos montar em minha sala uma central de informaes. Se acontecer algo estranho, se tiverem alguma suspeita, procurem-me. s vezes detalhes insignificantes 
esclarecem tudo. Colaborem, por favor.
      Ana Regina, uma das atrizes mais badaladas do elenco, disse:
      ? Como no estou escalada agora, vou viajar. O seguro morreu de velho.
      Romeu Santos, que sempre interpretava papis de polticos ou milionrios, bateu a mo espalmada na cintura.
      ? J estou andando com o berro no coldre. Tenho porte de armas.
      Patrcia Lins, que disputava com Luciana Rios a preferncia do pblico jovem, no teve pudor de declarar:
      ? S sairei  rua se houver incndio no edifcio.
      Prata, rindo o tempo todo, disse:
      ? E a primeira vez na vida que acho bom no ser famoso. O tal manaco apenas mata artistas de muito cartaz. E eu no dou audincia.
      Alguns riram; riso forado. Brincadeira tem hora. 
      Outro ator, Armando de Sousa, foi prtico:
      ? Vou contratar um guarda-costas. Acho at chique ter um. 
      No final da reunio, Prata, cheirando a lcool, passou por Ivo e aconselhou:
      ? Fique de fora, garoto. Se bancar o detetive como seu irmo, pode sobrar para voc.
      Ivo e Renata saram juntos.
      ? Qual foi sua impresso?
      ? Todos apavorados ? ela respondeu.
      ? Foi o que vi: pavor. Aposto que os bares do Leblon, freqentados por artistas, vo andar s moscas.
      Todas as precaues foram tomadas, mas no dia seguinte, ao sair da emissora, Luciana Rios sofreu um atentado.
      
       
       
       
      
     O ATENTADO
     
      Foi s sete da noite, no trmino das gravaes. Luciana, no porto, esperava por Milton, que fora apanhar seu carro no ptio. Nisso, um jovem maltrapilho que 
passava pela rua pediu-lhe um autgrafo.
      ? Agora no ? recuou a atriz, lembrando-se das palavras do delegado.
      ? No custa nada, moa.
      Luciana viu o carro do namorado, manobrando.
      ? Sinto muito, tenho pressa.
      ? Voc  Luciana e eu sou seu maior f ? declarou o rapaz, j prximo dela.
       
      Luciana recuou um passo, apavorada e ia correr na direo do carro de Milton, que chegava ao porto, quando o admirador persistente retirou um canivete aberto 
do bolso. A atriz, vendo a arma, gritou no tom inconfundvel dos filmes de terror. Uma frao de segundo e o agressor estava dominado.
      Depressa, como acontece nos filmes e telenovelas, chegou a Polcia. O rapaz foi jogado dentro do carro policial, tentando ver Luciana, como se ainda esperasse 
obter o autgrafo.
      ? Eu j o tinha visto algumas vezes ? disse a atriz.
      ? Ontem ele tentou burlar a vigilncia e entrar na emissora ? informou um dos porteiros.
       
      
     CLEMENTE SILVA O NOME DELE
     
      Na delegacia, o rapaz disse chamar-se Clemente Silva; no portava documento. Borracheiro, desempregado. Nordestino. Confessou que freqentava o porto da Mundial 
para ver os artistas. Conhecia todos.
      ? Por que anda com esse canivete? ? perguntou o delegado.
      ? Numa cidade como esta a gente tem que ter uma arma.
      ? Costuma pedir autgrafos aos artistas?
      ? Coleciono.
      ? Pediu autgrafo a Fbio Rocha?
      ? Aquele que mataram? Pedi, mas no deu.
      ? Pediu a Nina Flores?
      ? Estava sempre rodeada.
      ? E para Pedro Ventura?
      ? Esse era muito orgulhoso. At me empurrou.
      Nesse momento, chegou a equipe do telejornal, com Miranda  frente. A cmera comeou a procurar ngulo. O iluminador jogou um foco de luz no rosto de Clemente. 
O tcnico de som testou o equipamento.
      Clemente olhava para tudo, fascinado com a movimentao.
      ? O que vo fazer?
      ? Uma ceninha para o noticirio ? respondeu Miranda.
      ? Vou sair na tev? No duro?
      A reportagem j comeara no porto da Mundial, com declaraes de Luciana e Milton. Prosseguia agora na delegacia, abrindo com um close de Clemente.
      ? Conhecia tambm Paulo Maciel? ? perguntou o delegado.
      ? O moo do telejornal? Conhecia.
      ? Sabe escrever?
      ? Sei, doutor. 
      Uma pergunta importante:
      ? Conhece a Tijuca?
      ? Eu trabalhava l, no borracheiro.
      ? Onde, precisamente?
       
     MATOU OU NO MATOU?
     
      ? Perto do correio.
      A cmera enquadrou a reao do doutor Reis ao ouvir: "Perto do correio". Fez ento a pergunta esperada, antecedida por uma pausa para dramatizar a ao. Miranda, 
feliz. No era mesmo uma novelinha policial?
      ? Foi voc quem matou os artistas e o reprter? ? Clemente Silva no se surpreendeu com a pergunta; estava mais interessado no equipamento da tev. ? Foi voc? 
? repetiu o delegado.
      ? A que horas isso vai sair na televiso? ? perguntou Clemente.
      ? Fiz uma pergunta ? berrou o delegado. ? Matou ou no matou?
      Clemente ajeitou-se melhor na cadeira. Outra pausa. Parecia final de captulo! Ia dizer sim ou no?
      ? Fui eu, sim ? confessou.
      ? Foi Sim 
      ? Por qu?
      Clemente encarou a luz vermelha.
      ? Porque no quiseram me dar autgrafo.
      A reportagem continuaria mais tarde, no borracheiro onde Clemente trabalhou. O dono do estabelecimento, homem pequeno, pouco maior que um ano, no hesitou 
em declarar:
      ? Dei o emprego a ele porque  da minha terra, Aracaju. Mas me arrependi. No levava o trabalho a srio, s pensando na tev. Gastava tudo que ganhava com 
essas revistas que publicam retratos de artistas. Uma vez me mostrou as assinaturas de alguns deles. Empregado assim no serve. Mandei embora.
      ? Acha que ele teria matado os artistas e o jornalista? ? perguntou Miranda.
      ? Franqueza? Acho que sim ? admitiu o borracheiro. ? s vezes aparecia aqui nervoso, nem conseguia trabalhar. Quando mataram os artistas, comprou todos os 
jornais. Se disse que matou,  porque matou mesmo.
      O delegado e a equipe de reportagem foram depois  casa de cmodos onde Clemente morava. Uma mulher gorda, com um turbante vermelho na cabea, recebeu o pessoal 
de cara feia.
      ? O que foi que aquele pau-de-arara fez dessa vez? Roubou outra feira?
      ? Ele  ladro de feiras?
      ? J foi grampeado por causa disso.
      ? Mas agora a coisa  mais sria. Teria matado quatro pessoas ? informou o delegado. ? No ouviu falar das mortes dos artistas?
      A mulher at riu; a cmera pegou bem o riso dela.
      ? Aquela porcaria? Essa no. Imaginem, matar logo quatro. O que vocs tm na cabea?
      ? Mas ele confessou.
       A dona da casa no se convenceu.
      ? O Clemente? Papo-furado, moo. Ele no tem competncia para isso.
      
      
     O QUE DIZEM UNS E O QUE DIZEM OUTROS
     
      Ivo e Renata assistiram  reportagem juntos, na Mundial; no terminava com as declaraes da mulher do turbante, mas com uma esferogrfica vermelha, encontrada 
entre os magros pertences do Clemente.
      ? Concordo com ela ? disse Ivo. ? Clemente no tem cabea para cometer crimes enigmticos. No passa dum ladrozinho de feira.
      ? Mas trabalhava na Tijuca e tinha uma esferogrfica vermelha.
      ? No me convence.
      ? E os autgrafos? Era um manaco caador de autgrafos. Um doente mental. Como sempre, imaginou-se a pessoa que cometeu os crimes.
      Diante do televisor da redao, redatores e artistas comentavam a confisso. Luciana e Milton aceitavam Clemente como criminoso. Para eles, caso encerrado. 
Outros discordavam, usando diversos argumentos.
      ? Ele nem foi visto no parque.
      ? E podem imaginar um sujeitinho desses, que nunca deve ter ido ao teatro, planejar a morte de Pedro em seu prprio camarim?
      ? E Maciel no podia desconfiar dum cara completamente desconhecido. Era uma carta que no estava no baralho.
      Ivo e Renata saram da emissora, foram a uma lanchonete. Olhando a rua, cansados da emoo do dia, viram um punk passar com um copo na mo, a assoprar bolas 
de espuma como se tal maluquice fosse coisa absolutamente normal. Quando deixaram a lanchonete, viram o punk outra vez, parado diante duma casa, ainda se divertindo 
em produzir bolas de espuma.
      ? Que cara mais doido! ? exclamou Renata.
      ? Ser que mora naquela casa?
      ? Nem sei se os punks moram ? disse a moa.
      Dois outros punks saram da casa e juntaram-se ao fabricante de bolas.
      ? A pode ser uma comunidade deles ? disse Ivo. ? Gostaria de conhec-los de perto.
      ? Seriam to agressivos como parecem?
      ? J li uma reportagem sobre eles ? lembrou Ivo. ? No tm nada a ver com os hippies, como muita gente pensa. Esses, que comearam a aparecer no incio da 
dcada de 60, se dedicavam ao artesanato, pregavam a Paz e o Amor e combatiam a possibilidade duma guerra atmica. Os punks no so contra nem a favor de nada. Sua 
filosofia consiste apenas em no colaborar com coisa alguma. Seria interessante entrevist-los.
      ? O Miranda no consideraria uma entrevista de amenidades.
      Ivo passou do desejo ao plano:
      ? No seria como tarefa da Mundial. Eu me apresentaria a eles como reprter dum jornal que no existe. S para sondar.
      Renata no se entusiasmou:
      ? Houve uma confisso, Ivo. Fique quietinho at que a Polcia esclarea bem o caso do borracheiro.
        "Para ela tambm eu sou o garoto das reportagens leves", pensou Ivo. "Ningum me confere maioridade."
      
      
     ENTRE PARNTESES
     
        (Petra Santana, ao assistir pela tev a confisso de Clemente, respirou aliviada. Andava com caraminholas na cabea desde que vira duas de suas facas no 
vdeo: uma de suas sentinelas, para simplificar as metas da Liga, roubara as facas e matara os artistas. Relaxou, tudo fantasia. O criminoso, confesso, j estava 
detido. Fim do pesadelo. E quanto s facas... E quanto s facas?)
      
      
     UM ASTRO QUE A TV NO CONTRATOU
     
      Clemente Silva foi submetido a novo interrogatrio, agora para valer, e sem a presena incmoda da televiso. Doutor Reis no gostou de ter lido nos jornais 
que a Polcia encontrara um bode expiatrio.
      ? Vamos l, borracheiro, queremos a histria tintim por tintim. ? Mostrou-lhe as cartas. ? Voc que escreveu?
      ? Foi, doutor.
      ? E postou as cartas no correio da Tijuca?
      ? Sim, senhor.
      O delegado retirou as duas facas da gaveta.
      ? Usou estas facas para matar Fbio Rocha e Nina Flores?
      Clemente mal olhou para as armas.
      ? Sim, senhor.
      ? E com que armas matou Pedro Ventura e o reprter?
      A porta abriu e entrou um investigador; j estavam outros dois na sala.
      ? A televiso est a? ? perguntou Clemente.
      ? Hoje no tem televiso ? berrou o delegado. ? Chega de espetculo. Diga: com que arma matou Pedro e o reprter?
      ? Com o canivete.
      ? Aproxime-se mais da mesa ? ordenou doutor Reis. E deu-lhe um papel e uma esferogrfica de tinta vermelha. ? Recorda-se do que escreveu nas cartas?
      Clemente ficou nervoso. Respondeu baixando a cabea:
      ? Mais ou menos.
      ? Vou ditar o que escreveu. Pegue a caneta e escreva.
      A mo de Clemente tremia ao pegar a caneta, sob o olhar fixo do delegado e dos trs investigadores.
      ? Posso fumar um cigarro?
      ?No ? respondeu um dos investigadores.
      ? Pegue direito na caneta. Agora escreva: Aguardem a prxima atrao" do jeito que escreveu as trs outras vezes. Vamos, no fique me olhando com essa cara 
de imbecil! "Aguardem a prxima atrao".
      Clemente usou a caneta lentamente, desenhando as letras.
      ? O que mais? ? perguntou.
      O delegado pegou o papel. Os investigadores aproximaram-se para ler tambm. Clemente no escrevera em letras de frma e fizera seus garranchos no alto da pgina 
e no no centro, como nas mensagens anteriores. A ortografia tambm apresentava inovaes:
      
       
        
      Os investigadores riram, o delegado no.
      ? Em que teatro matou Pedro Ventura? Dessa vez, o corpo todo de Clemente tremeu.
      ? No Municipal.
      Nova risada, agora com a participao do delegado.
      ? Por que confessou que matou as quatro pessoas, borracheiro?
      Clemente olhou para todos, um por vez, e depois engoliu em seco. Precisou dum minuto inteiro para responder:
      ? Para aparecer na televiso.
      ? E apareceu ? disse o delegado. ? Se seu propsito era s esse, conseguiu.
      ? Ser que passou l em Aracaju? ? perguntou Clemente, ansioso. ? Eu disse para a turma que ia aparecer um dia.
      No mesmo dia, os jornais e a televiso desmentiram que o enigma tivesse chegado ao fim. Clemente Silva no matara ningum e de Luciana Rios queria apenas um 
autgrafo. Videota, seu nico desejo era o de ser visto por milhes, virar atrao ao menos durante um dia. Como castigo, o delegado no permitiu que ele prprio 
se explicasse diante das cmeras. Clemente resignou-se, tanto que saiu da delegacia sorrindo.
      Na esquina, o borracheiro viu uma banca de jornais. Parou, extasiado. L estava seu retrato. Ia passando um transeunte apressado. Clemente parou-o, obrigando-o 
a olhar para a banca.
      ? Aquele l sou eu!
      
      
     TODOS FICAM TENSOS OUTRA VEZ
     
      Com o desmentido a tenso voltou  Mundial. Miranda pediu aos artistas que se mantivessem atentos. Olho vivo e nada de folga com estranhos. A portaria recebeu 
ordem de redobrar a vigilncia. Nem fantasma entraria sem crach de identificao no peito.
      Renata almoou com Ivo no bar-restaurante da emissora.
      ? Voc estava certo, Clemente inventou tudo.
      ? Foi o lado humorstico da tragdia. E como vai o clima no estdio?
      ? Muitos fazem piada, dizem que no esto nem a, mas no ntimo, morrem de medo. ? E mudando de assunto: ? O que fez hoje cedo?
      ? Mandaram-me para o zoolgico. Nasceu um filhote de rinoceronte. Um bebezinho de quase cem quilos. Mas  tarde estarei livre ? concluiu com um significado 
especial.
      Preocupada, Renata perguntou:
      ? E o que vai fazer, ento?
      ? Entrevistar aqueles punks para o nmero de lanamento da revista mensal Estamos a.
      ? Eu no entrava nessa.
      ? No me considero valente, mas vou arriscar.
      ? Ento vou junto.
      ? Esqueceu que tem estdio hoje  tarde?
      ? E se lhe acontecer alguma coisa?
      ? J aconteceu ? respondeu Ivo sorrindo. ? No imaginei que se preocupasse tanto comigo. Isso  timo!
      
      
     PETRA TAMBM
     
      Petra entrou na sala. Enquanto espanava os mveis, Marinalva assistia ao noticirio da televiso. 
      ? Ento era tudo bafo!
      ? O que quer dizer bafo? ? perguntou Petra, que no suportava gria.
      ? Conversa fiada. Zoeira. Mentirinha. O rapaz no tinha nada com o peixe.
      ? Que rapaz?
      ? O borracheiro que confessou os assassinatos. Era falta de parafuso, s.
      ? Ento, no foi ele que matou os artistas?
      ? J est soltinho por a, belo-belo. Queria apenas aparecer na televiso. Pode?
      Um choque para Petra.
      ? Marinalva, tem uns caixotes l no quintal. Veja se as facas esto dentro deles.
      ? A gente no mexe naquilo h anos!
      ? Obedea, mulher. Hei de encontrar as facas, mesmo se for para derrubar a casa.
      
      
     NO TERRITRIO DOS PUNKS
     
      Havia um grande quintal esburacado e trs barracos de madeira. A porta de um estava aberta, de l vinham sons de guitarra. Uma sombra indecisa projetou-se 
sobre o cimento. Ivo apareceu e ficou parado perto dum ralo. Sempre  mais difcil fazer que planejar, e no caso dum tiro pela culatra a equipe da tev no estaria 
ali para proteg-lo. 
      Foi chegando  porta do barraco a passos curtos. Pelas janelas abertas da casa expandia-se um cheiro desagradvel de restos de comida e em alguma parte uma 
criana chorava com a fora de quem no pretendia parar logo. Se no tivesse dito  Renata que ia, teria desistido. Alm do mais, sua inteno no era muito clara. 
Entrevistar punks, por qu? Apenas para apurar se tinham instintos homicidas? Ou por que j sentia a atrao do perigo, m que puxou seu irmo para a morte?
        A porta do barraco, espiou. Ivo viu trs punks sentados sobre esteiras, um tocando guitarra. Dois usavam bluso de couro preto, outro apenas camiseta. Nenhum 
mvel. Tudo o que possuam era a guitarra, as esteiras e uma moringa tosca. Como se vissem s o que lhes interessava, no tomaram conhecimento de Ivo na porta.
      ? Boa tarde! ? cumprimentou o reprter.
      Um deles, mais alto, com seu bluso preto todo decorado com placas metlicas, levantou-se; o guitarrista, porm, tentando aperfeioar um acorde, continuou 
a tocar.
      ? O que quer,  cara?
      ? Eu trabalho numa revista, Estamos a, que vai ser lanada. Podia entrevistar vocs?
      ? No estamos a fim, cara. Pode ir andando.
      ? Um momento. Sou da imprensa alternativa, fora do sistema. Tambm somos marginais, na profisso. Acho que se vocs dessem um pl, podamos fazer uma boa matria 
? disse Ivo, usando uma linguagem que supunha ser a dos punks.
      ? Quem mandou voc aqui? A gente no se liga nessas coisas.
      ? Foi um companheiro de vocs, que conheci num parque de diverses.   
      ? Quem? ? exigiu dessa vez o que continuava sentado na esteira, ao lado do guitarrista.
      ? Ele no disse o nome.
      O mais alto no acreditou.
      ? Voc est chutando, garoto. Ns queremos que a imprensa se dane. O que falou com voc podia ser tudo, menos punk. Nenhum de ns pinta em parque de diverses. 
O que est pensando, piolho? Que somos fissurados em besteiras?
      Ivo insistiu ainda:
      ? Na entrevista vocs podiam dizer tudo o que pensam das coisas. O que se levantara dirigiu-se para os outros dois:
      ? Esto interessados em dizer o que pensam das coisas?
      Nenhum respondeu.
      ? E quanto  msica? ? perguntou Ivo. ? Esto no rock pesado ou partiram para outra? ? E ao guitarrista: ? O que  isso que est tocando?
      ? Qualquer coisa ? respondeu o guitarrista.
      ? Vocs j gravaram? Minha, revista tem uma pgina s para sons. 
      ? No estamos nessa de vender discos ? disse o mais alto. ?  fajutagem. Agora pinica, que falamos at demais.
      Ivo ia afastar-se, quando chegaram da rua um punk e uma punk, tambm com bluses pretos adornados com chapas metlicas. O rapaz trazia uma garrafa de vodca.
      ? Quem  o cara? ? perguntou a moa.
      ? Jornalista, quer entrevistar a gente. Mas j desistiu ? disse o mais alto.
      ? Eu conheo voc ? disse a moa.
      No era lugar em que Ivo gostaria de ser reconhecido.
       
       ? Ele  da televiso ? lembrou-se a punk. ? Estava na casa dos velhos, quando ele apareceu entrevistando um camel.
      ? Voc no disse que era da tev ? falou o mais alto. ? Qual  o babado?
      Ivo testou uma sada.
      ? Eu no sou, apenas fiz um teste.
      ? Esse pessoal j ps a gente em fria ? disse a moa. ? Acham que fomos ns que matamos aqueles caretas da televiso.
      Ivo se sentiu empurrado e quando deu por si estava dentro do barraco, cercado pelos cinco punks.
      ? Quando Nina Flores morreu, a Mundial fez xaveco com a gente ? acusava o guitarrista. ? Eu e ele tivemos de ir  delegacia ? disse, referindo-se ao mais alto. 
? Outros at levaram sopapos. Agora se aparecemos num bar, todo mundo se manda.
      ? A dona daqui anda cabreira e est querendo expulsar a gente ? acrescentou o que trouxera a vodca. ? Tudo por culpa da Mundial, que pichou os punks.
      A moa fez uma suposio:
      ? Pode ser que ele seja espio mandado pela tev.
      ? Leva jeito ? disse o guitarrista.
      Ivo respirou fundo; seria pior se perdesse o controle.
      ? Ningum me mandou. No tenho nada com a tev. Apenas queria fazer uma entrevista.
      ? O que a gente faz com ele? ? perguntou o mais alto. ? No merece uns tabefes?
      ?  um mentiroso. Merece sim ? decidiu o guitarrista.
      Ivo sentiu que o medo acabara e comeava o pavor. Preferiu apanhar protestando.
      ? Podem me bater. Mas vocs sero expulsos daqui hoje mesmo. Vou pr a boca no trombone. Irei aos jornais e s tevs. Vocs sero acusados at de coisas que 
no fizeram.
      Alguns continuaram agressivos, prontos a atacar o reprter, mas a moa decidiu contemporizar.
      ? Calma, pessoal. O que ganhamos em machucar esse cara, com a Polcia de olho na gente? Por mim, deixava ele ir. Se a dona disto souber, nos azaramos.
      ? Ela tem razo ? disse o mais alto. ? J entramos em muitas frias ultimamente. Pode ir saindo, piolho. Est com sorte. Por que no compra um bilhete de loteria?
      Ivo no saiu, desmaterializou-se. Quando voltou  forma corporal, j estava na rua. "E se resolvessem me revistar e encontrassem minha identificao de reprter 
da Mundial?", pensou. "Acho que me matariam", concluiu. Mas no estava totalmente arrependido de ter ido  comunidade. Apesar das caras feias dos punks, tinha quase 
certeza agora de que esses no estavam envolvidos com os assassinatos.
       
      
     UMA PISTA SUPERQUENTE
     
      O pequeno fusca verde estacionou prximo  casa da presidenta da Liga. Dentro, um casal de namorados.
      ? O que espera ver aqui? ? perguntou Ivo  Renata.
      ? Nunca ouviu falar da famosa intuio feminina? Alm disso, no podemos cruzar os braos apenas porque sua reportagem com os punks no deu certo. Temos de 
nos mexer. Veja! As sentinelas esto chegando para a reunio.
      Duas senhoras desceram dum nibus e dirigiram-se ao quartel-general da Liga. Uma chegou de txi, e outra, dirigindo seu prprio carro. A mais chique, uma mulher 
loura, altssima, chegou num Mercedes. Um motorista fardado abriu-lhe a porta.
      ? A diretoria j est completa?
      ? No, outra vem vindo a p.
      ? Deve morar nas vizinhanas.
      Renata apertou o brao de Ivo com tanta fora que at doeu.
      ? Essa eu conheo!
      ? A baixinha gorda?
      ? E Elisa Bastos! Eu a vi pela tev!
      ? E quem  Elisa Bastos?
      ? Ela estava no parque de diverses quando mataram Nina.
      ? Fazendo o qu?
      ? Disse que era f de Nina.
      ? Mas no que a presena dela no parque a compromete?
      ? Ivo, ela viajou no trem-fantasma ? assegurou Renata. ? E quando lhe perguntavam se conhecia Petra Santana, j que morava na Tijuca, respondeu que no. Era 
mentira! Ela  uma das diretoras da Liga!
      ? E agora?
      ? Vamos esperar que acabe a reunio e depois a seguiremos. Quero saber onde ela mora, sem recorrer  Polcia.
      A reunio foi breve. Menos de uma hora depois de entrarem, as sentinelas deixaram o quartel-general. Renata ps o carro em movimento e foi seguindo Elisa Bastos, 
a ltima a sair da casa de Petra. Ela dobrou a primeira esquina.
      ? Mas ela  to dona-de-casa! ? disse Ivo.
      ? Seu prprio corpo  um disfarce.
      Elisa entrou numa casa trrea, com jardim na frente, igual a outras da rua. Ivo anotou o endereo.
      ? E agora? ? perguntou.
      ? Voc falou com os punks, eu falarei com ela.
      ? Pretende passar pelo qu? Vendedora de cosmticos?
      ? As vendedoras de cosmticos no geral tm o dobro de minha idade. At amanh invento uma.
      ? Pretende vir amanh?
      ? Pretendo. Antes que Elisa Bastos mate mais um artista.
      
      
      
      
     UMA IDIA ARRISCADA
     
      Na Mundial, nenhum artista famoso relaxara as cautelas. At o ano Jujuba, grande atrao nos shows, deixou de circular muito pelos bares e restaurantes. Tais 
precaues estavam dando resultado, pois a prxima atrao continuava sendo aguardada.
      Ivo voltou ao apartamento, onde nunca tinha nada a fazer. Pegou o romance no criado-mudo.
      O telefone.
      ? Sou eu: Renata. Acabo de bolar uma idia. Vou apresentar-me  Elisa Bastos como se desejasse criar uma espcie de ala jovem da Liga. O que acha? Vai colar?
      ? Creio que sim, sua espertinha. Mas aconselho a no dar as costas para a tal Elisa, para que ela no lhe espete uma de suas facas domsticas.
      ? Tomarei todo cuidado, mais do que voc tomou com os punks.
      ? A que horas vai?
      ? As dez da manh. A gravao comear  tarde.
      ? Boa sorte.
      ? Beijo.
      ? Renata! Deixe-me cumprimentar a titia.
      ? J foi dormir. At.
        
      
     DANIEL TEM UM SUSPEITO
     
      Como sempre, o assunto eram os crimes na redao do telejornal. Todos tinham idias, arriscavam palpite.
      ? Sei quem matou os colegas ? garantiu Daniel.
      ? Quem foi?
      Daniel fez a pausa que ensinava a seus atores nos momentos de drama e suspense, e revelou:
      ? O Miranda. Matou para que o telejornal tenha mais audincia que as novelas.
      Ivo, presente, por um triz no conta que ele e Renata estavam seguindo uma pista superquente, mas decidiu calar a boca. E saiu com a equipe para entrevistar 
o proprietrio duma manso, que resolvera trocar seus ces de guarda por um imponente leo.
      
      
      
      
      
     RENATA E ELISA FRENTE A FRENTE
     
      Uma empregada introduziu Renata na sala da casa modesta de Elisa Bastos. A sentinela, toda maternal em seus trajes caseiros, apareceu logo.
      ? Dona Elisa, desculpe-me por tomar seu tempo, mas  sobre a Liga.
      ? Para a Liga pode tomar-me o tempo que quiser. Sente-se, minha querida.
      ? Eu e minhas amigas admiramos muito o trabalho das sentinelas.  to corajoso!
      ? Isso  raro, os jovens em sua maioria esto sempre contra ns. Eles que so as maiores vtimas da degenerao dos costumes!
      ? Mas nossas amigas no pensam assim, tanto que desejam colaborar.
      ?  ainda mais surpreendente!
      ? Inclusive, tivemos uma idia: a criao duma ala jovem da Liga.
      ? Interessante ? admitiu Elisa Bastos. ? Uma ala jovem. Sangue novo na liga. Acho que nossa presidenta, Petra Santana, vai receber a sugesto com entusiasmo. 
Mas por que no a procuraram diretamente? Ela mora aqui perto.
      Renata, embora no esperasse pela pergunta, respondeu em tom de confidncia:
      ? Sabe, dona Elisa, disseram-me que a senhora  mais receptiva, mais... mais..., quero dizer, mais fcil de conversar.
      Elisa sorriu e teceu consideraes:
      ? Petra pode at assustar  primeira vista... Voc sabe como so os lderes. Mas de uns dias para c, at que anda meio cansada. Ontem, na reunio, falou at 
em afastar-se da presidncia por algum tempo. Eu, como vice, assumiria. Porm, com ela na presidncia, ou comigo, sua sugesto ser estudada e provavelmente aceita.
      ?  o que desejamos: colaborar.
      ? Escreva ento o seu projeto. Petra gosta das coisas objetivas. E muito em breve ter nossa resposta.
      ? Isso era tudo ? concluiu Renata, j convencida de que a entrevista fora intil.
      ? Mas ainda no disse seu nome.
      ? Dinor ? respondeu Renata. ? Pode me chamar de Dina.
      ? Tem ouvido falar muito de nossa Liga?
      ? Tenho, inclusive atravs de pessoas que a combatem. H gente muito maldosa. Quiseram at implicar as sentinelas nesses crimes da tev. A senhora certamente 
sabe disso.
      Com a mesma naturalidade e voz macia, Elisa Bastos confirmou.
      ? Sabemos, sim, mas nada abateu nossas convices. Na verdade, nem tomamos conhecimento dessas calnias.
      ?  verdade que dona Petra foi at intimada a comparecer  Polcia?
      ? Isso no aconteceu. A Polcia reconheceu o ridculo dessas suspeitas. O doutor Reis, encarregado de esclarecer os homicdios, tem por Petra uma grande admirao. 
Bem, est na hora do meu almoo. Aceita almoar comigo?
      Renata sentiu um cheiro bom e quente de bolinhos de bacalhau.
      Uma mulher que matou quatro pessoas seria ao mesmo tempo tima cozinheira e dona-de-casa?
      ? Fica para outro dia ? respondeu a falsa Dinor, j saindo. Mas deteve-se  porta ao olhar para o cho, atrada por alguma coisa. Uma guitarra eltrica. ? 
Algum toca em sua casa?
      ? Um sobrinho meu, que morava comigo. Amava esse instrumento.
      ? No toca mais?
      ? Adoeceu e est internado. Acho que foi por causa dele que me tornei uma sentinela. Essas coisas do mundo moderno... Bem, no se esquea de fazer o projeto 
e de traz-lo aqui.
      
      
     MAIS INFORMAES: O DA GUITARRA
     
      Renata foi para o carro, entrou, mas no deu a partida. O que teria acontecido ao sobrinho de dona Elisa? Ligou o motor. A porta da casa da sentinela abriu-se 
e a empregada, com uma cesta, foi at a esquina, onde havia um armazm. Momentos depois, estacionava l o fusca verde e Renata entrava no estabelecimento.
      ? Que cabea a minha! ? disse ela  empregada. ? Esqueci de perguntar  dona Elisa o nome do sobrinho dela.
      ? Ela lhe falou dele? ? admirou-se a empregada. ? Sempre faz tanto mistrio sobre Antenor.
      ? Ele est muito doente, no?
      ? Dona Elisa disse que ele est internado em Jacarepagu?
      ? Disse, mas por que o segredo?
      ? O rapaz viciou-se em drogas ? respondeu a empregada em voz baixa. ? Para uma sentinela no  bom que se saiba disso. Creio que at dona Petra ignora.
      Faltava uma pergunta:
      ? Em que hospital de Jacarepagu Antenor est internado?
      ? No So Mateus, mas, por favor, no diga  dona Elisa que lhe disse. Nem sei o que faria comigo.
      ? No se preocupe, no direi nada.
      
     NA PISTA DO PUNK
     
      Ivo esperou Renata no bar-restaurante da emissora. Ela no demorou.
      ? Esteve l?
      Renata sentou-se; seus olhos brilhavam.
      ? A pista  superquente.
      ? Acha que a gorducha baixinha  a pessoa?
      ? Ela no, mas talvez um sobrinho dela, Antenor, um guitarrista que de tanto tomar drogas ficou biruta e est internado num hospital de Jacarepagu, o So 
Mateus. Quem me contou tudo isso foi a empregada, que segui at o armazm, logo depois de sair da casa de Elisa.
      ? Quem sabe seja o punk que procuramos.
      ? Pode ser ? disse Renata. ? S lamento no poder ir ao hospital nem hoje nem amanh. Temos muitos captulos para gravar.
      Ivo nem pensou para responder.
      ? Eu vou, amanh cedo. Acho que estamos chegando l.
      ? Estamos, sim, Ivo. Esse hospital deve ser apenas um refgio para o tal Antenor. O lugar onde representa o papel de doido.
      
      
     ISSO TERIA ALGUMA COISA
     A VER COM A HISTRIA?
     
      Ivo entrou na quitinete e foi direto para o banheiro; era uma daquelas noites de calor do Rio. Ficou um tempo enorme sob o chuveiro, pensando na visita que 
faria ao hospital na manh seguinte. Seria aquela a pista fatal que seu irmo seguira? Ou h pistas diferentes, que acabariam se encontrando?
      Saiu do banheiro e deitou-se na cama. Para passar o tempo, resolveu ler. Abriu a gaveta do criado-mudo e tateou buscando o romance policial. 
      No encontrou. Abriu a gaveta toda: nada. Foi procurar o livro na estante. No estava l. Teria cado atrs do criando-mudo? No.
      Depois de remexer o apartamento todo, pegou o interfone: portaria.
      ? Por favor, entrou algum no meu apartamento hoje?
      ? A porta est forada?
      ? Um momento, vou ver. ? Ivo foi  porta, examinou-a, e voltou ao interfone: ? No foraram.
      ? Mas desapareceu alguma coisa?
      ? Um livro.
      ? O senhor deve ter emprestado a algum. 
      Ivo sabia que no, mas respondeu:
      ? Pode ser, obrigado. ? Tornou a procurar o livro com mais calma. Intil. Ligou para Renata: ?  o Ivo. Desapareceu um livro do meu criado-mudo.
      ? S por isso  que est nervoso?
      ? Justamente o romance que Paulo estava lendo.
      ? Deu uma olhada geral em tudo?
      ? Cansei de procurar.
      ? E o que mais desapareceu?
      ? Apenas o livro.
      ? Ningum entraria num apartamento para pegar um livro. Nossos ladres ainda no atingiram esse nvel cultural.
      ?  justamente o que estranho.
      ? Leia outro livro. O importante  o que voc vai fazer amanh.
      Na manh seguinte, quando Ivo ia  Mundial, o porteiro perguntou:
      ? Encontrou o livro?
      ? No, e tambm no emprestei a ningum.
      ? Garanto que nenhum estranho passou aqui pela portaria.
      ? Pode ter entrado pela garagem e subido pelo elevador de servio.
      ? Impossvel ? informou o porteiro. ? Pusemos fechadura no elevador da garagem. Sem chave ningum sobe.
        Isso no explicava; complicava, mas Ivo no dispunha de tempo para pensar nisso.
      
      
     O SANATRIO
     
      No era hospital, a tabuleta dizia Sanatrio So Mateus, um casaro pintado de branco, situado numa rua tranqila. Ivo subiu um lance de escadas de mrmore 
e foi entrando. No alto, empurrou uma porta e deparou com uma enfermeira.
      ? Vim visitar um amigo ? disse. ? Chama-se Antenor.
      ? Hoje no  dia de visitas. Apenas s quintas e domingos.
      ? Acontece que estou de passagem pelo Rio e viajo hoje mesmo.
      ? Acompanhe-me. Se a diretora permitir, tudo bem.
      Ivo seguiu a enfermeira por um extenso corredor acarpetado e entraram numa sala. A diretora, uma cinqentona simptica, assinava papis, sentada a uma escrivaninha.
      ? Este rapaz veio visitar o Antenor ? disse a enfermeira. ? Ele est de passagem pelo Rio.
      A diretora dirigiu-se  enfermeira:
      ? Como ele est hoje?
      ? Continua na mesma, doutora.
      ?  um caso difcil ? disse a diretora. ? O senhor pode entrar, mas, por favor, no demore nem lhe faa muitas perguntas. Antenor precisa de repouso quase 
absoluto. Qualquer coisa o irrita.
      Ivo fez a primeira pergunta:
      ? H quanto tempo ele est internado?
      ? Seis meses, e no apresentou ainda nenhuma melhora. 
      O primeiro crime dera-se h quatro meses.
      ? Nesse tempo ele nunca saiu do hospital?
      ? Duas vezes, uma delas no Natal ? respondeu a diretora. ? No faz a mnima questo. Na primeira vez, saiu de manh e voltou  tarde. Apesar de tudo parece 
que se sente melhor aqui do que em sua prpria casa. Ester, pode acompanh-lo. ? E acrescentou para Ivo: ? No se surpreenda de ele no o reconhecer. E como se estivesse 
envolto numa nvoa.
      A enfermeira conduziu Ivo atravs de outro corredor, que levava a um enorme salo, onde alguns internados, de ambos os sexos, assistiam  televiso ou jogavam 
damas e domin, num ambiente limpo e sossegado como o dum colgio em frias. Havia tambm uma tela para exibio de filmes, uma mesa de pingue-pongue e outra de 
sinuca.
      ? Ele est l ? disse a enfermeira, apontando uma mesa perto duma janela.
      Antenor, sentado, olhava fixamente as pedras de domin, como se disputasse uma partida com um parceiro invisvel ou pretendesse mov-las pela fora mental. 
Seu aspecto geral no era no entanto dum demente; apenas sua imobilidade acusava essa condio.
      ? Ele  violento? ? perguntou Ivo  enfermeira.
      ? Antenor? E o mais calmo de todos. A doena para ele  isso que est vendo. Fica o dia todo assim, olhando para as pedras de domin, para a tela ou para as 
paredes. Desligou-se do mundo.
      Ivo aproximou-se, ficando ao lado de sua mesa.
      ? Como vai? ? perguntou.
      O doente moveu o rosto lentamente na direo de Ivo e, sem esboar a menor reao, voltou, tambm devagar, a focalizar as pedras.
      ? Quer jogar domin? ? disse Ivo. ? Eu sei. 
      Nenhuma resposta.
      ? Alm de domin, o que gosta de jogar? Tambm jogo damas. Acho mais interessante.
      O sobrinho de dona Elisa continuou mudo; no demonstrava nenhuma animosidade, apenas ignorava que Ivo estivesse ali. Ivo pegou uma cadeira e sentou-se tambm 
 mesa. Podia, assim, ver Antenor de frente. Era um moo de feies regulares, harmoniosas, sem nenhum trao fsico da loucura. O corpo estava ali, porm o esprito 
viajara. Para onde?
      ? No tem saudade dos amigos? Voc deve ter tido muitos. Vamos. No quer mesmo jogar?
      Outro interno, um homem de meia-idade, chegou-se  mesa.
      ? Vai ser difcil faz-lo falar. s vezes fica assim semanas.
      ? Nunca recebe visitas?
      ? Apenas duma tia.
      ? Ele no assiste  televiso, no l jornais?
      ? Nunca. Parece que gosta de banhos frios. Costuma ficar uma hora sob o chuveiro. Gosta tambm de seguir o vo dos pssaros no jardim. Acho que  tudo.
      Ivo dirigiu-se outra vez a Antenor:
      ? Gostaria de receber sua guitarra? ? Pausa. ? Voc tem uma, lembra-se dela?
      Quem falou foi o outro interno.
      ? A guitarra j esteve aqui, ele nem ligou.
      ? No imaginava que estivesse assim ? disse Ivo. ? Foram mesmo as drogas?
      ? Parece que ele recebeu um choque muito grande. Que algo se partiu por dentro.
      Ivo se lembrou de perguntar:
      ? Ele andava metido com punks!
      ? Quando chegou aqui tinha os cabelos raspados, mais ou menos como um punk, mas no sei se viveu entre eles.
      Ivo percebeu que a enfermeira se aproximava, dando fim  visita. 
      Despediu-se do companheiro de Antenor e acompanhou-a at a porta de sada. O enigma continuava, mas no era isso que o deprimia. Acreditava que custaria a 
esquecer aquele corpo  espera duma alma, que, por ter ido muito longe, no conseguia mais voltar para casa.
      
      
     OUTRA VEZ: O LIVRO
       
      Numa lanchonete, prxima da Mundial, Ivo contou a Renata detalhadamente o resultado de sua visita ao Sanatrio So Mateus. Continuava impressionado com o estado 
de Antenor. Jamais vira algum assim.
      ? Ele no estaria fingindo?
      ? Ningum viveria to bem um papel. Aquele moo est muito doente. Devemos esquec-lo. Seguimos mais uma pista errada.
      ? Est certo, pode ser que Antenor esteja gravemente enfermo, mas o que Elisa Bastos foi fazer no parque de diverses e por que disse que no conhecia Petra 
Santana?
      ? Eu no sei ? respondeu Ivo, irritado. ? No sou desses detetives de filmes enlatados, que sabem tudo.
      ? Voc est querendo desistir?
      ? Renata, ns continuamos no mesmo lugar! Todas as nossas pistas so furadas! No  para desanimar? E como estou me sentindo, desanimado. Um enigma difcil 
demais para ns. Nem a Polcia consegue nada!
      Renata interrompeu a mordida que dava num sanduche.
      ? Se quer desistir, desista. Eu continuo sozinha! 
      A primeira briga dos dois.
      ? Quer saber duma coisa? ? disse Ivo. ? Estou muito mais preocupado com o livro.
      ? Que livro?
      ? O que foi roubado de meu apartamento, porque foi roubo, sim. 
      O tema para Renata era uma fuga. Que importncia tinha o sumio dum romanceco policial?
      ? Quem limpa o apartamento? No h uma faxineira? 
      Todos os sentidos de Ivo ficaram acesos, como nas novelas, quando acontece alguma coisa decisiva e logo colocam um acorde musical para realar. O tal: tam-tam-tam-tam.
      ? Faxineira? Como no havia pensado nisso? H uma faxineira sim. E  a nica pessoa que entra no apartamento. Renata, desculpe, mas tenho de ir. Preciso falar 
com o porteiro.
      Uma pergunta angustiada:
      ? Vai desistir ou vai continuar?
      ? Eu nunca a deixaria sozinha nisso - garantiu Ivo.
      
      
     A ANALFABETA QUE L ROMANCES
        
      O porteiro dormitava sobre o balco da portaria.
      ? Preciso falar com o senhor ? disse Ivo. ? Sobre o livro. H uma pessoa que poderia ter roubado. A faxineira.
      ? No pode ser. Rosa  semi-analfabeta. Nunca leria um livro.
      ? Pode ter tirado para dar de presente a alguma pessoa.
      ? Mesmo nisso no acredito, mas vou falar com ela. Acho que ainda est limpando algum apartamento.
      ? Ivo subiu para a quitinete. s tantas, arrependido do desnimo que mostrara  Renata, telefonou para seu apartamento. Sabia que no a encontraria, ela estava 
na emissora, mas deixaria recado para que lhe telefonasse. No deu certo. O telefone tocava, tocava, tocava, e ningum atendia. A tia tinha sado.
      O interfone:
      ?  Manuel, o porteiro. Falei com a Rosa.
      ? Falou?
      ? Confirmado: ela que pegou o livro.
      ? Para que, se mal sabe ler?
      ? No disse, mas ficou de devolver amanh.
      ? Devolve mesmo?
      ? Pode confiar, ela  sria.
      Durante o resto da tarde, Ivo tornou a ligar mais trs vezes para o apartamento de Renata. Nada. "Uma velha doente que no pra em casa!", estranhou Ivo. Mas 
logo aps o telejornal das dezenove horas Renata ligou. Como era bom ouvir sua voz, ainda mais porque dizia:
      ? Vamos dar um giro esta noite?
      ? Estava farto desta quitinete! Se no telefonasse, me atirava pela janela!
      ? Passo em meia hora. At.
      
      
     F DE PETRA SANTANA?
        
      Ivo entrou no carro de Renata felicssimo e beijou-a.
      ? Estou doido para refrescar a cabea! Aquela ida ao sanatrio foi barra.
      ? E o livro?
      ? Acertou em cheio, gata!
      ? Estava com a faxineira?
      ? Ela devolve amanh.
      ? Alguma ex-professora?
      ? O porteiro disse que no l nem anncio.
      ? Ento por que afanou o livro?
      ? Sei l! Mas que eu estava encucado, estava.
      ? E por causa do clima de mistrio que a gente est vivendo ? disse Renata, pondo o carro em movimento. ? H uma boa pea de teatro na praa. Vamos conferir?
      ? Toque, mas como vai a velha, sua tia? Telefonei uma penca de vezes para o apartamento e ningum atendeu.
      ? Estava no apartamento da vizinha. ? E confidenciou: ? Uma f de Petra Santana.
      
      
      
      
     FALTAVA UM DETETIVE PARTICULAR?
     AGORA J TEM
      
      O teatro foi excelente higiene mental; a pea, alm de provocar o riso, provocava sede tambm, sua vantagem extra. Depois de percorrerem toda a praia, com 
os bares lotados, encontraram uma mesa vaga. O assunto de sempre foi logo lembrado.
      ? Qual vai ser nosso prximo passo?
      ? Sei l! Esperar talvez que o acaso colabore. Sabe, acho que foi o que aconteceu com Paulo. Para mim, ele no partiu de investigao alguma. Apenas deu um 
esbarro na pista certa e gritou: Eureca! O azar dele, alis. Se no tivesse descoberto nada, ainda estaria vivo.
      Uma dessas lembranas que podem estragar um passeio. Renata sentiu isso.
      ? No vamos falar dos crimes hoje ? disse Renata. ? Merecemos um repouso. Ah! ? exclamou para iniciar novo assunto. ? Tenho uma coisa para lhe contar. Espero 
que no se zangue. Voc vai compreender...
      Ivo concentrou-se, todo ateno.
      ? O que ? Voc tem outro namorado? E isso?
      ? Calminha, Ivo. E mude de cara j, do contrrio no falo.
      ? Algum problema na tev?
      Uma pessoa que ia passando s pressas na rua, reconheceu Ivo e parou diante da mesa. Era Djalma, sem lgrimas, mas ainda descontrolado. Apertou a mo dos dois, 
entrando imediatamente no seu nico assunto. 
      ? Agora a gente pega o assassino ? disse.
      ? Agora, por qu? ? perguntou Ivo, ansioso.
      ? Vou contratar um detetive particular. H um excelente, um tal de Fagundes, o melhor do Rio. Marquei uma entrevista para amanh.
      Renata, que sabia da fama desse detetive, comentou:
      ? Ele vai cobrar uma nota.
      ? Pago o que ele pedir ? respondeu Djalma prontamente. ?  a nica possibilidade, porque na Polcia no confio mesmo.
      ? Gostaria que me mantivesse informado de tudo, Djalma. 
      ? Telefonarei a voc ? disse Djalma, despedindo-se e afastando-se com a mesma pressa.
      Ivo e Renata olharam-se.
      ? Parece que est ficando louco! ? observou a moa.
      ? Ele d essa impresso, mas quem sabe esteja no caminho certo. Nosso problema  enigma para profissionais.
      E voltando a falar dos crimes esqueceram da revelao que Renata ia fazer.
      
     NEM EU, QUE ESCREVI ESTE LIVRO, 
     ESPERAVA POR ESTA
       
      A lder das sentinelas virou o copo: dose dupla de calmante. As duas facas mostradas na televiso, com as quais haviam matado Fbio Rocha e Nina Flores, eram 
iguais, iguaizinhas s que haviam desaparecido do faqueiro. Era cada vez mais evidente que uma das sentinelas, levando longe demais os objetivos da entidade, decidira 
acabar com o pecado exterminando os pecadores.
      "Vou enlouquecer", Petra Santana avisou a si mesma. "Desse momento em diante serei uma desvairada."
      Marinalva entrou na sala.
      ? Dona Ismnia telefonou quando a senhora saiu.
      ? O que queria?
      ? O endereo do eletricista.
      ? Devo ter anotado, vou procurar.
      No minuto seguinte, Petra se lembrava; no do endereo, mas da nica pessoa estranha ? como fora esquecer? ? que estivera em sua casa nos ltimos tempos: o 
eletricista.
      ? A senhora est se sentindo mal? Quer que prepare um ch?
      
      
     O LIVRO DE PAULO DEVOLVIDO.
     DEVOLVIDO?
        
      Ivo entrou na quitinete. A gaveta do criado-mudo aberta um dedo. Enfiou a mo e retirou um livro. Devolvido, ainda bem. Tirou a roupa, tomou banho, ligou o 
televisor e deitou-se com os olhos no vdeo. Luciana Rios e Milton Brs viviam uma cena de amor que terminava em beijo. Petra estaria cronometrando? Desinteressado, 
pegou o romance no criado-mudo. No chegou a ler meia pgina e correu para o interfone.
      ? Seu Manuel!
      ? O que manda?
      ? A faxineira devolveu o livro errado.
      ? O que ela devolveu no era o seu?
      ? Pertencem  mesma coleo, mas no  o meu.
      ? Deixe para mim. Torno a falar com ela.
      Ivo desligou o interfone, irritado. Para desanuviar, telefonou para o apartamento de Renata. Ningum atendeu. A tia devia estar na vizinha, a admiradora de 
Petra Santana. Folheou o livro. No lugar de O correio da morte, a faxineira devolvera A safra vermelha. Um dia levaria o televisor emprestado e devolveria um radiotransistor.
      O telefone. Ivo correu, podia ser Renata.
      ? Ivo?
      ? Quem ?
      ? Djalma.
      ? Ah, voc! Alguma novidade?
      ? Contratei o detetive, o Fagundes. Fiquei bem impressionado. O homem tem uma grande folha de servio. E no vai explorar, no. Como as vtimas foram artistas 
famosos, a badalao em torno de seu nome ser enorme. A, ento, encher os bolsos de dinheiro.
      ? Ele acha que pode esclarecer tudo?
      ? Deu certeza. Mas vai comear do comeo. Destrinchando caso por caso. Por isso, vai procurar voc.
      ? No tenho muito a dizer, mas pode procurar. E quanto a voc, mais aliviado?
      ? Graas a Deus. Agora estamos no caminho certo. Boa noite, Ivo.
      Mas no foi uma boa noite. Ivo continuava irritado com a faxineira, que parecia brincar com ele. E a revelao de Renata, interrompida, voltava-lhe  cabea, 
cheia de pontos de interrogao. Enquanto Djalma esfalfava-se em agarrar o criminoso, observou, ele deixava dominar-se por uma paixo. O que ela teria para lhe contar?
      
      
     O ELETRICISTA MISTERIOSO
      
      Petra tinha um mal: nunca anotava ou mesmo perguntava o nome das pessoas que lhe prestavam servio. Sabia o nome do encanador? No. O do cortineiro? No. O 
do antenista? No. Mas esses eram estabelecidos, gente do bairro, com endereo e telefone. O eletricista era outro caso, jamais o vira antes. Lembrou-se de que ele 
dissera, ao despedir-se:
      ? Como estou de mudana, telefono depois para deixar o novo endereo.
      Mas como ele aparecera? Nem disso Petra se lembrava. Perguntou  Marinalva:
      ? Como foi que apareceu o eletricista? Ns o chamamos?
      ? No, ele bateu  porta. Apresentou-se como encanador, tcnico de aparelhos domsticos e no sei o que mais. A senhora ouviu e lembrou que precisvamos dum 
eletricista. Tnhamos tido um curto-circuito. Mas no aconselho mand-lo  dona Ismnia. Ele deixou uma poro de fios soltos.
      ? Disse o nome?
      ? Disso no lembro.
      Petra fez um esforo para visualizar o eletricista, mas sua memria apenas captou uma cabeleira vermelha.
      
      
     ACREDITAM EM CARTOMANTES?
       
      Ivo deu outra espremida no porteiro.
      ? Falou com a faxineira?
      ? Falei, ela vai devolver.
      ? Quando?
      ? Hoje no vai dar. Mandou uma mulher dizer que est doente.
      Ivo seguiu para a Mundial e de l para o Engenho de Dentro 
      
       
com a equipe, a fim de entrevistar Tia Tutu, a mais antiga cartomante da cidade. A veteranssima profissional espalhou as cartas sobre uma toalha axadrezada. Luz 
vermelha na cmera ? ao!
      ? Vou tirar sua sorte, garoto. Corte. ? Ivo dividiu o baralho em montinhos. Tia Tutu tornou a espalh-las. Com uma piscada marota, adivinhou: ? Voc anda cado 
por uma linda mocinha. Eu a estou vendo aqui. Tem bom gosto. Como ela se chama?
      ? Marcela ? inventou Ivo.
      ? Ela mesma! ? garantiu Tutu. ? Acertei?
      ? Em cima.
      ? Voc vai fazer uma bela carreira... Mas tem um mas aqui.
      ? Que mas? ? perguntou Ivo, representando, como se estivesse preocupado.
      ? Olho aberto, rapaz! Tenha receio da prpria sombra. Voc est correndo um grande risco ? disse Tia Tutu, apontando sobre a mesa um feio s de espadas. ? 
Saia dessa ontem. Ainda  moo para se azarar. Falei.
      ? Chega! ? disse o chefe da equipe. ? Esteve timo, Ivo. Que cara de medo! Milton Brs no faria melhor.
      
      
     RENATA, S UM POUCO
      
      Ivo e Renata cruzaram-se no corredor da Mundial.
      ? E o livro?
      ? A faxineira no devolveu ainda. Estou com uma pulga atrs da orelha.
      ? No coce, que  pior.
      Ela parecia com pressa, Ivo segurou-a.
      ? Conte-me agora aquilo. Outro dia voc ia me dizer qualquer coisa importante.
      ? Ah, sim, ia.
      ? O que era?
      Um homem alto e magrssimo aproximou-se dos dois.
      ? A senhorita  Renata Rocha?
      ? Sou.
      ? Eu sou o detetive Fagundes. Podia me ceder uma horinha?
      Renata dirigiu-se a Ivo.
      ? Amanh a gente conversa.
      
      
      
      
      
     A SENHORA FICOU SATISFEITA
     COM MEU TRABALHO?
       
      Petra estava sozinha na sala quando tocou o telefone. As sentinelas costumavam ligar  noite, aps a programao, para comentar cenas imprprias que haviam 
assistido na tev.
      ? Dona Petra?
      ? Sim.
      ? Aqui  o eletricista.
      A lder levou um susto; despencou numa cadeira.
      ? O eletricista...
      ? A senhora ficou satisfeita com meu trabalho? 
      Respirao forte, tentativa de recuperar a calma.
      ? Sinceramente, no. O senhor deixou um mundo de fios soltos.
      ? Coisas que acontecem quando se faz tudo num s dia. Passarei a para colocar tudo no lugar. Quero que tenha boa impresso minha. Boa noite.
      ? Um momento. Uma amiga minha est precisando de eletricista. Podia dar seu nome e telefone?
      ? Infelizmente ainda no me estabeleci no bairro. No tenho telefone nem para recados. Mas ligarei assim que for possvel ? concluiu num ritmo apressado.
      ? No desligue ainda. H uma coisa. Oua.
      ? Pois no.
      ? Nesta casa nunca entram estranhos. No entanto, trs facas desapareceram do meu faqueiro aps a sua vinda.
      O eletricista fez uma pausa maior que o tempo gasto por Petra para fazer sua acusao.
      ? A senhora est dizendo que roubei suas facas?
      ? E tem algo ainda mais grave ? disse a sentinela-mor. ? Vi duas daquelas facas na televiso, exibidas por um delegado, o doutor Reis.
      ? Se sabe onde as facas esto, por que no vai busc-las? ? perguntou, admirado, o eletricista.
      ? Porque elas constam duma investigao policial.
      ? No estou entendendo nada, dona Petra.
      ? Certamente ouviu falar do assassinato dos artistas da tev. Pois bem, minhas facas foram usadas para mat-los.
      ? Mas h tantas facas iguais!
      ? Como as do meu faqueiro, no.
      ? O que est querendo dizer, afinal! Que matei os atores com suas facas? Por que faria isso?
      ? O porqu a Polcia dir quando apanh-lo. Lembro-me bem do seu rosto ? mentiu.
      ? Curioso! ? exclamou o eletricista. ? A senhora preside uma Liga que odeia os atores e acusa um modesto eletricista de mat-los.
      ? Combatemos os maus costumes, mas no somos assassinas.
      ? No seu lugar, dona Petra, calaria a boca. Se eu fosse o criminoso seria fcil envolv-la nisso, j que as armas so suas. Bastaria dizer que me pagaram para 
matar. Que foi um servio encomendado pela Liga. Alis, no  de seu bairro que partem as tais mensagens?  
      Petra ouviu passos no corredor. No queria prosseguir aquela conversa diante de Marinalva. Desligou.
      
      
     PROCURANDO ROSA
      
      Antes de ir ao trabalho, Ivo parou na portaria.
      ? A faxineira veio?
      ? No.
      ? Mandou algum recado?
      ? No mandou.
      Como no tinha reportagem para fazer aquela manh, perguntou:
      ? Sabe o endereo dela?
      O porteiro abriu um caderno e anotou o endereo da faxineira num papel.
      ? Rosa mora no bairro de Ftima.
      O reprter apanhou um txi que passava. Gastar dinheiro e tempo para recuperar um romance policial velho, com a capa rota e os cadernos soltos, podia parecer 
ridculo, mas havia algum mistrio naquilo. Admitia que Rosa podia estar doente, o que no a teria impedido de devolver o livro atravs da pessoa que levara o recado. 
Alm disso, se no conseguia solucionar esse pequeno enigma, como pensar no mistrio do assassinato dos atores e de seu irmo?
      Chegou  rua estreita e sem calamento onde Rosa morava. Parou diante dum casaro de aspecto ainda pior que a residncia dos punks. No dispensou o txi, entrando 
com passos rpidos por um porto escancarado. Uma mulher lavava roupa num tanque.
      ? Conhece dona Rosa?
      A lavadeira respondeu sem interromper o trabalho.
      ? Conheo.
      ? Qual  o quarto dela?
      ? Era o primeiro,  direita.
      ? Disse... era?
      ? Mudou ontem  noitinha.
      ? Para onde?
      ? Que eu saiba, no disse para ningum.
      ? Estava doente? Ontem ela no foi trabalhar.
      ? Esteve o dia todo ocupada com a mudana ? disse a mulher com os olhos nas peas de roupa que lavava.
      Ivo foi dar uma espiada no quarto que Rosa ocupara. S viu uma garrafa vazia de cerveja num canto. A lavadeira surgiu ao seu lado.
      ? Ela nem chegou a ligar a geladeira. ? Tinha comprado uma geladeira?
      ? E um televisor tambm. No sei onde arranjou dinheiro para isso, ganhava to pouco!
       
      
     A CORRIDA ATRS DUM LIVRO VELHO
      
      Ivo mandou parar o txi diante da livraria de livros usados onde estivera com Renata e pagou o motorista.
      O proprietrio reconheceu-o imediatamente.
      ? Como vai indo na televiso?
      ? Muito bem.
      ? Suas reportagens so timas. Gostei daquela do homem que substituiu seu co de guarda por um leo.  voc quem descobre essa gente?
      ? No,  a produo do telejornal.
      ? Procura algum livro?
      ? Sim, um romance policial dos bem antigos.
      ? Tenho centenas deles. Qual  o ttulo?
      ? O correio da morte, de Douglas Irish. 
      O livreiro balanou a cabea.
      ? Ah, esse no tenho. Mas j tive. No teria vendido a seu irmo?
      ? Ele tinha um exemplar, mas no cheguei a ler. Dizem que  timo.
      ? Eu li o livro.  dos bons.
      ? Qual  o tema?
      ? Era sobre... ? o livreiro franziu a testa mas no lembrou. ? No recordo. Livro policial  assim, a gente l e esquece.
      ? H outros sebos por aqui?
      ? Tenho uma lista deles e vou lhe dar uma cpia. Ns, que trabalhamos com livros usados, ajudamos uns aos outros. Entre ns no h concorrncia, somos todos 
amigos. Os sebos dariam uma boa matria para a televiso. Aqui est a lista. H dois outros aqui pertinho.
      Ivo andou cem metros e entrou noutro sebo.
      ? Tem O correio da morte, um policial?
      O livreiro, um homem que usava um guarda-p, riu.
      ? O correio da morte...
      ? Tem ou no tem? ? perguntou Ivo ansioso.
      ? Estou rindo porque tivemos um exemplar durante anos e ningum procurou. E, agora, na mesma semana, duas pessoas o procuram. Ser que vo adaptar o livro 
para a televiso?
      ?  curioso mesmo. Quem comprou o exemplar?
      ? Quem? Na minha idade a gente esquece a prpria cara. De manh, quando me olho no espelho, sempre digo: eu conheo esse homem, mas no sei donde.
      Ivo tomou a deciso: correr todos os sebos da lista at encontrar O correio da morte. Tarefa dura, porque alguns eram distantes. Foi em frente. Num deles, 
no centro da cidade, o livreiro conhecia o romance, porm no o tinha no estoque. Outro s negociava com livros de no-fico. Um, mais amplo e sofisticado, dedicava-se 
somente a lbuns e livros de arte. Havia um exclusivo para raridades editoriais. Depois desse, Ivo entrou num sebo pequeno e desordenado. Perguntou ao livreiro:
      ? O senhor tem O correio da morte?
      ? Vendi o ltimo exemplar esta semana.
      ? Tenho um amigo que tambm o procura. Lembra-se do comprador?
      ? Lembro, porque ele me ajudou a procurar o livro.
      ? Como ele era?
      ? Era um cara de culos pequenos. Mas o mais engraado nele era a cabeleira, toda vermelha. So raros os tipos de cabelos vermelhos, no?
      Ivo no parou por a. Foi a mais outros sebos, at o ltimo da lista, que, alm de livros, vendia revistas velhas, reunidas numa montanha. Os interessados 
a escalavam apaixonadamente, pisando em edies histricas de A Cena Muda, Radiolndia, A Cigarra, Revista do Rdio, A Noite Ilustrada e O Cruzeiro.
      Cansado, Ivo perguntou ao livreiro:
      ? Tem O correio da morte?
      ? Tinha um exemplar, vendi ontem.
      ? Aposto que conheo a pessoa que o comprou ? disse Ivo. ? No seria um homem de cabeleira vermelha?
      ? Isso mesmo ? concordou o negociante. ? E usava culos minsculos.
      ? O senhor o conhecia?
      ? No, fregus novo.
      Ivo pediu auxlio ao livreiro.
      ? Percorri todos os sebos desta lista e no encontrei esse livro. O que eu fao?
      ? E uma edio antiga, quase raridade. No vai encontr-lo, a no ser...
      ? ... a no ser o qu?
      ? Que o encontre na Biblioteca Nacional.
      
      
     A LTIMA POSSIBILIDADE
      
      Ivo, que nunca esteve na Biblioteca Nacional, atrapalhou-se na consulta do seu vasto e complicado arquivo. Um funcionrio prontificou-se a ajud-lo na procura.
      ? O sobrenome do autor? Irish. Autor de romances policiais.
      ? Irish, Irish, Irish, Irish... Seria Douglas Irish?
      ? Esse mesmo! ? exclamou Ivo vitorioso.
      ? Temos um romance dele. Alis, o nico.
      ? Como se chama?
      ? Sangue no asfalto.  o que procura? 
      Ivo sacudiu a cabea.
      ? No.
      ? Por que no vai aos sebos?
       
      
     O OVO SERIA MESMO O DE COLOMBO?
       
      Ivo e Renata encontraram-se no bar-restaurante da emissora. Ele, cansado de correr atrs do livro; ela, cansada do trabalho.
      ? Sabe que aquele detetive ficou duas horas me interrogando?
      ? Ah, o tal de Fagundes! Que tal  ele?
      ? Um chato de galocha. Minucioso demais. Mas parece bom. E voc, o que fez? Est com cara de quem atravessou um deserto.
      ? Renata, acho que encontrei uma pista.
      ? Uma pista? Por favor, me conte.
      Ivo contou tudo, desde sua ida ao casaro da faxineira  procura do livro na Biblioteca, dando nfase especial ao homem da cabeleira vermelha.
      ? No entendi muito bem ? disse ela. ? Por que insiste em encontrar esse livro?
      ?  o romance que encontrei no criado-mudo, certamente o que Paulo lia ou tinha acabado de ler.
      ? E que significado tem isso?
      ? Bem, ele s passou a ter um significado para mim quando a tal Rosa, a faxineira, desapareceu depois de ter ganho dinheiro para comprar uma geladeira e um 
televisor em cores.
      ? Mas por que esse livro  to importante para o criminoso?
      ? Ele quer impedir que eu o leia.
      ? Por qu?
      ? A est, minha teoria nasceu de alguns por qus. Por que o punk tentou entrar em meu apartamento? Por que o livro desapareceu do criado-mudo? Por que devolveram 
outro em seu lugar? Por que a faxineira desapareceu? E por que algum de cabelos vermelhos andou comprando os ltimos exemplares de O correio da morte que restavam 
nos sebos do Rio?
      ? E j tem a resposta? ? perguntou Renata.
      ? Acho que o criminoso quer me impedir de ler o romance, porque foi lendo esse livro que Paulo chegou  soluo do enigma. Seu enredo deve ter muita semelhana 
com o assassinato de Fbio, Nina e Pedro.
      Renata tomou um copo inteiro de refrigerante antes de dizer:
      ? H um furo em sua teoria. Seu irmo identificou o criminoso pela leitura do livro, certo. Mas como o criminoso ficou sabendo disso?
      A continusta profissionalizara-se em detectar pequenos erros. A resposta foi demorada.
      ? J pensei nisso, Renata.
      ? Ele no podia adivinhar que seu irmo tinha lido esse livro, podia?
      ? Adivinhar, no. Mas podia saber.
      ? Saber, como?
      ? Atravs do prprio Paulo. Quem sabe ele conhecesse o assassino. Talvez fossem at colegas. Amigos. E Paulo resolveu ter uma conversa com ele antes de envolv-lo 
numa suspeita.
      Renata no ficou totalmente convencida. Olhou no relgio de pulso.
      ? Preciso ir.
      ? Mas ainda temos um assunto. Voc ficou de me contar uma coisa, o que era?
      Renata levantou-se.
      ? Fica para outro dia. Tia Alice me pediu para voltar cedo.
      ? Alice? O nome dela no  Jlia?
      ? E Alice Jlia ? respondeu Renata confusa.
        
      
     UM TELEFONEMA INTERESTADUAL
        
      Ao caminhar pelo corredor frio e escuro do andar onde morava, Ivo sentiu medo. E se o livro fosse uma pista quente e o criminoso soubesse que ele andava atrs 
dela? Certamente seria assassinado como fora Paulo. 
      Mesmo depois de ter entrado na quitinete e fechado bem a porta, o medo continuou. Quem era o homem de cabelos vermelhos?
      Pegou o telefone. So Paulo. A voz de Laura disse pronto.
      ? Laura, sou eu.
      ? Como vai, maninho? Tenho visto as reportagens. Gracinha. Mas quando voc...
      ? Psiu, Laura. No diga nada  mamma, mas estou quase-quase. 
      ? Ivo!
      ? Oua: vou precisar de voc. Quero que me compre um livro. Tem papel a para anotar? Chama-se O correio da morte, de Douglas Irish. Repita.
      ? O correio da morte, Douglas Irish.
      ? Mas  livro velho, que no se encontra nas livrarias. Tem de procur-lo nos sebos. Corra todos que puder, at encontr-lo. Depois, mande-o pelo malote da 
Mundial.
      ? Espere, mano. O que tem um livro velho a ver com os crimes?
      ? No d para explicar. Faa isso, gata. Depressa.
      ? Amanh j vou  luta.
      ? Um beijo sabor morango. Tchau.
      
      
     A TERCEIRA FACA DE DONA PETRA
      
      Ivo chegou  redao do telejornal no horrio de sempre: nove horas. Ao entrar, foi empurrado por um grupo de colegas que saa precipitadamente. 
      Miranda, agitado, dava ordens, aos gritos. Uma equipe era reunida para uma reportagem de ltima hora.
      ? O que aconteceu? ? perguntou.
      Ningum respondeu. Todos j estavam fora da sala, inclusive Miranda. 
      Quem d bola para um mero reprter de amenidades? Ivo passou diante do Estdio A e percebeu que tambm l havia uma movimentao inusitada.
      Renata correu para ele.
      ? J sabe?
      ? No sei de nada.
      ? Mataram o Prata.
      ? O Prata? ? surpreendeu-se Ivo. ? No  possvel. Ele, que estava to seguro por no ser famoso.
      Renata apertou-lhe o brao.
      ? Esto todos indo para o local. Vamos.
      No ptio, Ivo entrou no fusca de Renata. Um figurante de novela pediu carona e tambm entrou.
      ? Onde foi o crime? ? perguntou Ivo.
      ? Na penso onde ele morava ? informou o figurante. 
      Ivo continuava zonzo.
      ? Por que o Prata? Ator coadjuvante, intrprete de papis inocentes. 
      Nas novelas, sempre como vov, s beijava os netinhos!
      ? Fui continusta numa novela em que ele era o padre ? lembrou Renata.
      ? Na vida real, sim, podia ser mau exemplo ? disse o figurante. ? Bebia como um gamb.
      ? Coitado do Prata! ? lamentou Renata. ? Pela primeira vez vai ter o nome nas manchetes.
      J havia uma aglomerao diante da penso, policiais, jornalistas e curiosos. O detetive Fagundes tentava penetrar na casa. A janela do quarto da frente estavam 
o doutor Reis e o Miranda. Tcnicos da tev preparavam a gravao.
      ? No d para entrar ? concluiu Ivo. ? Melhor  assistir  edio extra.
      Renata concordou, mas viu Daniel e chamou-o.
      ? Como  que foi?
      ? Uma faca espetada no peito. Todo jeito de suicdio. Acho que o velhote quis fazer onda. Este quadro no tem a assinatura do matador.
      Ivo e Renata voltaram para a emissora. Meia hora depois assistiam  reportagem. A primeira imagem mostrava o Prata sentado na cama, morto. 
      Sobre as imagens, alguns dados biogrficos do veterano. Comeara a carreira no rdio, ultimamente trabalhava pouco devido  sua dificuldade em decorar papis.
      ? Embora andasse esquecido, ns o amvamos ? declarou Miranda.
      ? Que mentira! ? exclamou Milton, que tambm assistia  reportagem.   
      ? No restaurante, se o Prata se aproximava, ele se retirava.
      A cmera focou o doutor Reis. Tinha uma revelao a fazer.
      ? A primeira vista parecia tratar-se de suicdio. Mas, observando melhor, vi que estava enganado. Foi assassinato. A faca  do mesmo tipo que usaram para matar 
Fbio Rocha e Nina Flores.
      
      
      
      
     PETRA SANTANA E SEUS MPETOS
      
      Petra viveu o pior dia de sua vida a partir do momento em que viu a terceira faca do faqueiro espetada no peito de Carlos Prata. Desarvorada, sofreu diversos 
mpetos. O primeiro foi o de correr  Polcia e denunciar o eletricista. Mas lembrou-se da voz ao telefone ameaando-a de envolvimento nos assassinatos. O segundo 
mpeto foi o de reunir as sentinelas, contar tudo e pedir um conselho. E o terceiro foi o de fechar a casa e fugir da cidade, temendo que o assassino tambm a matasse.
      ? Marinalva! ? chamou.
      ? Estou aqui, patroa.
      ? Se aquele eletricista aparecer, no o deixe entrar.
      ? Acha que ele vai aparecer depois do servio porco que fez?
      ? Ele telefonou ontem e eu lhe disse algumas verdades.
      Marinalva ficou subitamente tensa:
      ? Dona Petra, a gente se esqueceu dele... Ele ficou um tempo zanzando pela casa. Se algum roubou as facas, s pode ter sido ele.
      ? No estou mais preocupada com as facas. Para mim, no ver mais esse homem  o suficiente ? disse Petra.
      
      
     ADEUS, PRATA
       
      O enterro de Carlos Prata foi no mesmo dia,  tarde. A liberao apressada do corpo parecia atender ao pedido da direo da Mundial, que no desejava prolongar 
o pnico que se renovara entre os atores. J no eram apenas os astros e estrelas famosos que se sentiam ameaados, mas todos.
      Ivo procurou o Miranda em sua sala e contou-lhe tudo sobre o desaparecimento do livro de seu apartamento e dos sebos da cidade. O diretor do telejornal no 
entendeu o que o garoto das amenidades queria dizer.
      ? H uma faxineira metida nisso? Como se chama?
      ? Rosa.
      ? Descubra o sobrenome. Quem sabe o doutor Reis possa se interessar.
      No fim da tarde, Ivo e Renata foram juntos ao cemitrio. A sobrinha de tia Alice Jlia estava calada. L havia pouca gente para o adeus: Luciana Rios, Milton 
Brs, Patrcia Lins, Ana Regina e alguns mais.
      Algum tocou no ombro de Ivo: Djalma Ventura.
      ? Meu detetive est firme no caso. J interrogou muita gente. O tal de Miranda  que no est querendo colaborar.
      ? Ele chegou a alguma concluso?
      ?  um homem discreto. S vai falar quando tudo estiver esclarecido. 
      Ele j conversou com voc?
      ? No.
      ? Mas vai conversar.
       
      
     A VOLTA AO BAIRRO DE FTIMA
      
      ? O nome dela completo? No tenho. Rosa no era registrada, trabalhava como diarista. E diaristas no tm sobrenome.
      ? Obrigado, Manuel.
      Ivo pegou um txi e voltou ao bairro de Ftima. Se descobrisse o sobrenome de Rosa, poderia apresentar algo mais concreto  Polcia. Falando apenas num romance 
roubado, at ririam dele.
      Ao chegar ao casaro, informado por um menino seminu que brincava no quintal, foi bater na porta do quarto da locadora. A porta abriu-se parcialmente. Ivo 
viu apenas o nariz e um olho de mulher idosa.
      ? Por favor, queria saber o sobrenome de dona Rosa, a que se mudou outro dia. Perteno a um departamento de cobrana.
      ? No sei, moo.
      ? Mas ela no assinava papis, recibos...?
      ? No sei ler, moo, no exijo essas coisas.
      ? Sabe ao menos para onde mudou?
      ? Disse que ia para Minas.
      ? Ora, Minas  grande. 
      ? ?
      Ivo no foi embora logo. Ficou circulando entre o porto e o quintal para perguntar a todos qual era o sobrenome de Rosa. Nenhum inquilino do casaro sabia.
      
      
       
      
      
      
      
     O MORTO REDIGE UMA MENSAGEM
      
      Ao chegar ao telejornal novamente Ivo deparou com um movimento intenso. Havia um papel que ia de mo em mo, causando a todos igual impacto. Outra mensagem 
de morte?
      ? Quando chegou? ? perguntou a um colega.
      ? Miranda recebeu agora.
      Ivo conseguiu ver apenas o envelope endereado ao Miranda e, como os outros, com o carimbo da agncia postal da Tijuca.
      ? Exatamente como as outras? ? perguntou Ivo ao chefe.
      ? Deixem o garoto ler ? disse Miranda.
      Passaram a carta a Ivo. As letras eram de frma e vermelhas como as anteriores, mas a redao muito diferente.
      
        
       
      Ivo devolveu a carta, sem conseguir fazer comentrio.
      ? Quem diria! ? exclamou Daniel. ? O Prata, que parecia no ser de nada.
      ? E com aquelas mos trmulas, que mal seguravam uma xcara ? lembrou algum.
      ? Tudo por despeito! ? lamentou um dos redatores. ? Despeito e cachaa.
      Miranda levantou-se.
      ? Vamos fazer uma edio extra.
      ? Sua novelinha chegou ao fim ? disse Daniel. ? E com uma grande surpresa no final, como o pblico gosta.
      Ivo saiu da redao; Renata vinha pelo corredor apalermada.
      ? E verdade o que esto dizendo?
      ? Li a carta.
      ? Ela no teria sido escrita por outra pessoa?
      ? No, quem escreveu essa, escreveu as outras. O mesmo papel, a mesma letra, a mesma tinta.
      ? Ento, no resta dvida. Era ele.
      Ivo estava com a boca seca, precisava dum refrigerante. Foi ao bar-restaurante com Renata, para ele, a cada vez mais estranha sobrinha de Alice Jlia. L Raul, 
cmera dos shows de Nina, estava transtornado.
      ? No me entra na cabea. Prata no viajou no trem-fantasma. E s quem viajou poderia t-la matado.
      
       
      Enquanto a carta-confisso do Prata era comentada pelos quatro cantos da emissora, Miranda, na edio extra, entrevistava os amigos mais ntimos do morto.
      Armando de Sousa, ator, disse:
      ? Apenas acreditarei nisso daqui a alguns dias. Trabalhamos juntos trinta anos. Sempre foi um briguento. Mas era desses ces que latem e no mordem.
      Ana Regina, entrevistada, acrescentou:
      ? Depois duma briga, sempre se arrependia. A, ou pedia desculpas a quem ofendera, ou bebia at se apagar.
      E Milton Brs:
      ? Que tivesse matado Fbio e Pedro ainda dava para acreditar. Mas Nina... Era sua maior amiga, a quem recorria quando precisava dum favor!
      As ltimas declaraes foram do doutor Reis.
      ? Sou um policial veterano e experiente, nunca me precipito. Mas posso garantir que esse caso chegou ao final. As pedras se encaixam perfeitamente. No sabemos 
exatamente como Carlos Prata agiu, porm no tenho dvida de que foi o autor dos quatro crimes.
      O pessoal que acompanhava a reportagem pelo vdeo, na emissora, continuou calado. Parecia ter assistido a uma novela cujo ltimo captulo no satisfizera.
      
      
     IVO FAZ UMA INVESTIGAO
     POR CONTA PRPRIA
      
      Ao sair da Mundial, Ivo no voltou para o apartamento. Tomou um txi e deu ao motorista o endereo da penso onde o Prata morara. A luz do quarto da frente 
estava acesa. Desceu do carro e foi tocar a campainha. 
      Uma mulher de cabelos brancos apareceu  janela.
      ? Sou da Mundial. Podia dar uma olhada no quarto do Prata?
      ? A televiso j esteve aqui na parte da manh.
      ? Eu sei. Vim apenas pegar um livro que tinha emprestado ao Prata.
      ? Ningum pode tirar nada, recomendao da Polcia.
      ? No vou tirar. Quero apenas ter a certeza de que o livro est a.
      ? Entre, ento. Basta empurrar o porto.
      Num instante, Ivo estava com a dona da penso no acanhado quarto onde o velho ator morara durante muitos anos.
      ? S vou dar uma olhada.
      ? Conhecia bem o Pratinha?
      ? Sou novo na Mundial, mas conhecia.
      ? O que acha disso tudo?
      ? Nem sei o que pensar ? respondeu Ivo, procurando o livro.
      ? Pois eu acho que o Pratinha no seria capaz de matar ningum. Suicidar-se, talvez; matar, nunca. Tinha um bom corao.
      Ivo no ouvia, procurava.
      ? Ele no tinha livros?
      ? S aqueles ? disse a dona da penso, apontando uma pequena pilha sobre uma mesa. ? Aqui no h espao para nada.
      Ivo passou os olhos nos livros: a Bblia, Dom Quixote de La Mancha, Robinson Cruso, Memrias de um sargento de milcias, Dom Casmurro. Apenas clssicos.
      ? A Polcia levou alguma coisa?
      ? Mexeu em tudo, mas no levou nada.
      ? Obrigado. O livro que procurava no est aqui. ? Mas antes de despedir-se fez uma pergunta: ? Ele recebia muitas visitas?
      ? Ultimamente s aquele ator novo, o Milton Brs.
      ? Boa noite.
      
      
     A TIA DE RENATA
      
      Ainda era o comecinho da noite. Ivo precisava conversar com algum. De um orelho, telefonou para o apartamento de Renata. Sem um papo gostoso ou um passeio 
pela praia sua cabea explodiria. Atenderam.
      ? Pronto.
      ? E dona Alice?
      ? Quem?
      ? Alice Jlia.
      ? No, no .
      ? Mas no  do apartamento de Renata Rocha?
      ?  sim, mas ela ainda no chegou.
      ? A senhora mora a?
      ? No, eu sou a diarista. Venho duas vezes por semana.
      ? A tia de Renata no mora a?
      ? Dona Renata mora aqui sozinha. Nunca me falou de tia nenhuma. Quer deixar seu nome?
      ? No  preciso. Obrigado.
      Foi andando, desolado. Parou diante duma banca de jornais. L estava o retrato e o nome de Carlos Prata na primeira pgina. Pela primeira vez dava ibope no 
pas inteiro.

      
     PETRA E SUA FACAS
      
        Petra Santana assistira pela tev a todos os noticirios sobre a carta-confisso do Prata e mandara Marinalva comprar os jornais da tarde. Na carta, ele 
dizia que comprara as facas dum vendedor de bugigangas. Teria sido do prprio eletricista, que vendia o que roubava? Seria o eletricista apenas um ladro, que oferecia 
seus prstimos s dona-de-casa para roubar? Mas por que no roubara suas jias, j que estivera trocando fios no quarto? Bastaria abrir a gaveta e enfi-las, com 
porta-jias e tudo, no bolso. Na ltima gaveta da cmoda havia uma carteira com dinheiro. No era muito dinheiro, mas o suficiente para comprar um faqueiro inteiro.
      ? Ele no era um ladro ? disse Petra em voz alta. ? Sua voz parecia ser de algum que carregava uma culpa muito maior. Se no matou, devia saber que uso deram 
s facas.
      Marinalva, tirando o p, perguntou:
      ? Falando comigo, patroa?
      ? Falando com ningum. Est ouvindo demais, Marinalva. E v buscar meu calmante.
      
      
     AINDA O CASO DA TIA
       
      Ivo chegou  emissora, mas no se dirigiu ao telejornal. Ficou  porta do Estdio A. Renata sempre chegava antes dos atores para fazer marcaes nas pginas 
dos scripts.
      O reprter segurou Renata pelo brao.
      ? Quero falar com voc.
      ? Madrugou?
      ? Tem um minuto?
      ? Se falar depressa ? disse a continusta, preocupada. 
      Ivo tentou mostrar naturalidade; fracassou.
      ? Ontem falei com sua tia. Que senhora agradvel! Batemos um longo papo. J somos amigos do peito.
      A moa encostou  porta do estdio abatida.
      ? Telefonou para meu apartamento? 
      Nesse momento, Daniel ia entrando.
      ? Vamos, Renata. Temos problemas.
      Renata acompanhou o diretor sem mais olhar para Ivo.
      Ao passar pelo departamento de telejornal Ivo viu o detetive Fagundes, que saa. Entrou e foi receber a ordem do dia com Miranda. O diretor estava irritado.
      ? Hoje s converso sobre assuntos profissionais. Para falar sobre os crimes do Prata no atendo mais ningum. Para mim acabou. E pgina virada.
      ? Esse que saiu no  um detetive particular? ? perguntou Ivo.
      ? Um sherlock chamado Fagundes. Me fez perder uma hora com besteira. No acredita que o Prata era o matador. Para mim, ele no passa dum espertalho que est 
explorando a pessoa que o paga para investigar. Mas o que voc est fazendo aqui, garoto? Pegue a equipe e v para o Graja entrevistar uma famlia que vive da fabricao 
de pipas gigantescas. Vai ser empinada uma de dez metros. Um belo visual!
      Ivo percebeu que no adiantaria conversar com Miranda sobre o livro desaparecido e a faxineira. Pgina virada. J estava preocupado com outras sensaes. Reuniu-se 
 equipe e foi para o Graja.
      Na hora do almoo, Ivo procurou Renata por toda a parte. Teria ido almoar com a tia? S a viu mais tarde, entrando no estdio. No final das gravaes, reencontrou-a 
outra vez. Caminharam juntos no corredor.
      ? Vamos falar de sua tia?
      ? Vamos.
      Daniel aproximou-se com um diretor de imagem, os dois nervosos.
      ? Renata, temos um abacaxi para descascar. Deu chabu na ltima seqncia. Temos de gravar tudo de novo. Voc ainda tem gs para isso?
      ? Vamos ns ? disse Renata, repetindo uma expresso em uso na Mundial, nas situaes de emergncia. ? Depois a gente acerta, Ivo.
      Ivo comeou a andar s pelo corredor. Desde que chegara ao Rio, nunca se sentira to deprimido. Um boy fardado aproximou-se com um pequeno embrulho.
      ? Chegou pelo malote.
      ? Para mim? ? O que seria? Quem lhe teria mandado aquilo? Rasgou o papel de embrulho. Era um livro velho, caindo aos pedaos: O correio da morte, de Douglas 
Irish.
      Laura o encontrara!
       
      
      
      
     O CORREIO DA MORTE
       
      Valeria a pena ler o romance, agora que a Polcia dava o caso dos assassinatos como encerrado? Deitado na cama, vestindo apenas cueca, Ivo iniciou a leitura 
pela orelha do livro, que trazia informaes sobre o autor. Douglas Irish, falecido em 1944, escreveu apenas meia dzia de romances policiais. Desses, apenas dois 
haviam sido traduzidos para o portugus. Embora norte-americano, ambientara O correio da morte em Londres.
      A ao do romance desenvolvia-se quase toda num clube de golfe de gros-finos, onde trs de seus scios haviam sido assassinados aps receberem mensagens pelo 
correio, avisando-os de que estavam marcados para morrer. Nas mensagens, via-se um sinete de desenho confuso, que parecia pertencer a uma sociedade secreta. A Polcia 
logo concluiu que os assassinatos seriam obra de terroristas de esquerda, empenhados em dar um susto nos capitalistas londrinos, muitos dos quais scios do clube.
      Seguindo nessa direo, a tradicional Scotland Yard chegou mesmo a prender como suspeitos diversos terroristas conhecidos. Mas, a, entra na histria um tal 
Jim Wade, detetive particular, que sempre acertava onde a Polcia errava. Jim, examinando o sinete, um trabalho de amador, concluiu que ele no pertencia a sociedade 
alguma, o que colocava fora de suspeita esquerdistas, maons, anarquistas e os membros em geral de qualquer partido ou entidade poltica. O criminoso mandava as 
mensagens e usara o carimbo para confundir a Polcia e a opinio pblica. Portanto, seus interesses eram particulares e no ideolgicos. E, com toda a certeza, seria 
beneficiado apenas por um dos crimes. Os outros dois fariam apenas parte da farsa.
      Jim Wade concentrou sua ateno nos herdeiros dos golfistas assassinados. Os herdeiros da primeira vtima eram insuspeitos, todos crianas; a segunda vtima 
j dividira sua fortuna entre os sucessores; quanto  terceira, possua um herdeiro s, viciado na roleta e freqentador das altas rodas. Jim Wade no hesitou; espremeu 
o suspeito at obrig-lo a confessar tudo. O romance terminava com uma frase do detetive: h sempre uma montanha de dinheiro atrs dum crime misterioso.
      
      
     DEPOIS DA LEITURA
        
      Concluda a leitura do romance, Ivo teve a impresso de ver tudo claro, a mesma que Paulo devia ter sentido. Como no livro, os crimes da tev no teriam sido 
cometidos por nenhum fantico ou manaco. Havia dinheiro atrs de tudo. Num caso e noutro, as mensagens serviam apenas para despistar. Dos trs crimes apenas um 
beneficiava realmente o matador.
      E Carlos Prata?
      Ivo, como a maioria dos seus colegas, no acreditava que Prata fosse o assassino. Para ele, sua morte e sua confisso no passavam duma hbil jogada para colocar 
um ponto final em tudo.
      Mas havia outras interrogaes que fundiam a cuca de Ivo.
      E o punk!
      E o homem de cabelos vermelhos?
      Pensou em telefonar para Renata, pondo-lhe a par de todas suas condies e dvidas, porm se deteve. Afinal, ela tambm era uma afortunada herdeira de quem 
Jim Wade suspeitaria.
      
      
     CONVERSA NTIMA COM MIRANDA
      
        Ivo seguiu para a Mundial muito mais cedo que a hora costumeira. Assim que Miranda entrou em sua sala, foi atrs. Na mo levava o exemplar de O correio da 
morte.
      ? Miranda, preciso falar com voc. Encontrei o livro que estava procurando.
      ? Que livro?
      ? No lhe falei daquele que desapareceu do meu criado-mudo, aquele que Paulo estava lendo?
      ? Ah, sim, voc falou duma faxineira ladrona. Descobriu o sobrenome dela?
      ? No, Miranda. Mas minha irm me mandou o livro de So Paulo. Nele, h uma srie de crimes num clube de golfe, sempre precedidos de mensagens.
      ? Voc no vai me contar o romance agora, vai? ? interrompeu-o Miranda.
      ? No, chefe,  que neste romance a seqncia de crimes no passa de mero despiste. Na realidade, o criminoso desejava fazer apenas uma vtima, um tio milionrio, 
para herdar seu dinheiro.  
      ? Interessante, mas onde quer chegar?
      ? Paulo deve ter concludo que os crimes aqui da Mundial obedeciam ao mesmo sistema. O verdadeiro objetivo do criminoso era matar um s para herdar os seus 
bens. Estou sendo claro?
      ? Clarssimo, Ivo. Mas acontece que a novela acabou. Foi Carlos Prata quem fez tudo. O papel, a tinta e a letra da confisso eram os de todas as mensagens. 
A polcia confirmou.
      ? Mas o assassino poderia...
      ? O que voc deve fazer  tirar essa idia fixa da cabea e concentrar-se no trabalho. Precisa do emprego, no?
      Ivo baixou a cabea.
      ? Preciso.
      ? Voc vai indo bem. Continue assim.
      ? Tem alguma reportagem na pauta?
      ? Ainda no surgiu nada. Relaxe.
      Ivo saiu da sala levando o livro. No tinha mais nenhuma idia fixa na cabea. Mas, ao chegar ao corredor, ela voltou.
      
      
     UM PAPO COM O DOUTOR REIS
        
      Ivo saiu da Mundial e foi  delegacia. Teve de esperar meia hora pelo doutor Reis, que, ao v-lo, reconheceu-o logo e introduziu-o em sua sala.
      ? Quem diria que um homem da idade de Carlos Prata seria capaz de matar quatro pessoas e suicidar-se em seguida! ? disse o policial. ? O mundo  cheio de mistrios!
      ? Carlos Prata, a meu ver, no matou ningum ? comeou Ivo. ? Nem mesmo cometeu suicdio.
      ? Voc no  o nico que pensa assim. Razes sentimentais. 
      Ivo mostrou o romance.
      ? Neste romance conta-se uma histria muito parecida com essa. Era o que meu irmo acabara de ler quando o mataram. Aqui, o criminoso mata trs, num clube 
de golfe, mas o homem que desejava mesmo matar era um s, seu tio, para herdar sua fortuna. Aqui deve ter acontecido o mesmo. Algum matou trs atores para atribuir 
os crimes a um manaco ou a algum moralista fantico, quando, na verdade, s um crime lhe interessava. Estou convencido disso.
      O delegado ouviu Ivo com um sorriso irnico.
      ? No confunda fico com realidade, rapaz. Ningum se arriscaria a matar tantas pessoas para desviar atenes. Num romance, isso pode convencer. Na vida real, 
no.
      Ivo procurou ignorar a ironia do delegado.
      ? Para mim, um velho ator alcolatra matar quatro pessoas  ainda mais absurdo. Ele no tinha um libi perfeito por ocasio do assassinato de Fbio Rocha?
      ? No era to perfeito assim. Seus amigos, beberres como ele, depois no confirmaram que Prata estivera mesmo naqueles bares.
      ? E quanto ao assassinato de Nina Flores? Ele no viajou no trem-fantasma com ela.
      ? Matou-a quando o trem chegou  estao e atirou a faca para o interior do tnel.
      ? E ningum o viu fazer isso?
      ? No havia uma multido l. Apenas um grupo esparso de curiosos.
      Ivo resignou-se; no seria capaz de convencer o delegado.
      ? Desculpe-me, doutor. Pensei em colaborar de alguma maneira.
      ? Como disse, voc no  o nico que no admite o Prata como criminoso. Djalma, sobrinho de Pedro Ventura, tambm. At contratou um detetive particular para 
deslindar o caso. Mas no vai chegar a lugar algum.
      
      
     O ALIADO
       
      O prprio Djalma abriu a porta do apartamento para Ivo entrar.
      ? Seu telefonema me encheu de esperanas ? disse. ? Tem alguma novidade?
      ? Creio que sim ? respondeu Ivo.
      ? Vamos entrando. No repare a desordem. Despedi a faxineira, estou gastando meu dinheiro com o Fagundes. Sente-se a. Quer um caf?
      ? No, obrigado ? respondeu Ivo, sentando-se. ? O detetive ainda est trabalhando para voc?
      ? Est, apesar de a Polcia ter dado o caso como encerrado. No me convenci que um homem da idade do Prata, sem antecedentes criminais, pudesse ter eliminado 
quatro pessoas. Minha cabea rejeita isso.
      ? Fagundes tem alguma teoria, obteve alguma pista?
      ? Receio que esteja desorientado. Ele j falou com voc?
      ? Ainda no. Mas talvez tenha me procurado.
      ? E voc? Tem alguma novidade? Qual?
      ? Costuma ler romances policiais? ? indagou Ivo, mostrando o exemplar de O correio da morte.
      ? No, a realidade j  violenta demais.
      ? Este  o romance que Paulo lia ou acabara de ler quando o mataram. Acho que o enredo desse livro o orientou na direo do assassino.
      ? Como concluiu isso?
      ? Comecei a desconfiar devido ao esforo que o criminoso fez para me impedir que o lesse.
      ? Podia explicar melhor?
      Ivo contou a histria a Djalma desde o incio, quando o livro desaparecera do criado-mudo. A medida que falava, o interesse de seu ouvinte crescia. E ele j 
parecia convencido quando o homem de cabelos vermelhos entrou em ao.
      ? Imagino que Paulo conhecia o criminoso e disse-lhe que passara a suspeitar dele aps a leitura do romance.
      ? Isso tudo  um pouco estranho, mas pode ser verdade.
      ? Estranho  Miranda, da Mundial, e o doutor Reis, no me darem a menor ateno. Acham que confundo fico com realidade.
      ? Mas no houve um autor que disse que a vida imita a arte? ? lembrou Djalma. ? Agora estou curioso. Qual  o enredo do romance?
      ? A histria se passa num clube de golfe, na Inglaterra, quando depois do assassinato de trs de seus associados os demais entram em pnico. As mortes ocorrem 
aps o envio de mensagens, que pareciam procedentes duma sociedade secreta, talvez poltica. Tudo levava a crer que era obra de polticos fanticos.
      ? E no era?
      ? No, quem matara os trs scios do clube fora o sobrinho de um deles, para herdar sua fortuna.
      ? Engenhoso. Gostaria de ler o livro. Pode me emprestar?
      ? Com prazer ? disse Ivo, entregando o exemplar para Djalma.
      ? O que me diz da teoria? Pode ser aplicada ao caso dos assassinatos que estamos investigando?
      ? Vou conversar ainda hoje com Fagundes a respeito. Mas minha opinio  sim. Nina Flores, por exemplo, tinha diversos herdeiros. Conheci um deles. Sobrinho, 
parece-me. Um tal de Nelson, sujeito muito estranho. Fbio tinha dois irmos.
      ? Renata conheo,  insuspeita.
      ? Mas h outro, ela referiu-se a ele de passagem, numa entrevista de televiso.
      ? Ignorava.
      ? E quem pode garantir que eu seja o nico parente vivo de tio Pedro? Vou convocar o Fagundes. Aguarde telefonema.
      Ivo animou-se; no estava sozinho na luta, e teria at um detetive para ajud-lo.
      ? Vou prosseguir nessa batalha at o fim ? garantiu. ? Nada me far desistir.
      Djalma apertou-lhe a mo calorosamente.
      ? E um juramento que tambm fiz.
      
      
     A TIA QUE NO EXISTIA
      
      Ivo aproximava-se da Mundial quando ouviu uma buzina. Era Renata, dirigindo seu carro. Ela fez sinal para ele e encostou o carro.
      ? Zangado comigo? - perguntou.
      ? O que voc acha? Que no tenho motivo?
      ? Tem, sim. Entre um pouco.
      Ivo entrou no fusca, ainda resistente. Mas como ela estava bonita aquela manh!
      ? Bem, o que tem a dizer?
      ? Eu tentei lhe contar tudo, faltou oportunidade.
      ? Aquele assunto era sobre sua tia?
      ? Era.
      ? Afinal, voc tem uma tia ou no?
      ? Foi idia de Fbio ? contou Renata. ? Quando me arrumou o apartamento, inventou a histria. "E um perigo uma moa morar sozinha numa cidade como esta", disse. 
"No deixe que os outros saibam. Voc ficaria na mira dos espertinhos. Espalhe que mora com uma tia. Pega melhor. Impe mais respeito." E eu aceitei o conselho. 
Perdoada agora?
      Perdoar era tudo que Ivo queria.
      ? Claro... mas entenda o choque que levei quando a empregada disse que voc no tinha tia alguma.
      ? Entendo. Mas isso j passou, no?
      ? Passou.
      ? Vamos  Mundial. Tenho gravao agora.
      ? Renata, voc no tem parente nenhum?
      ? Tenho ? disse ela com alguma tristeza.
      ? Irmo?
      ? Sim, um irmo. ? E abrindo a bolsa mostrou o retrato dum garoto de dez a doze anos. ? Chama-se Plnio. Est internado. Sofreu paralisia numa perna, mas felizmente 
est se recuperando muito bem.
      
      
     IVO APERTA O CERCO
      
      Depois do encontro com Renata, Ivo telefonou para Djalma.
      ? Podemos riscar o irmo de Renata de nossa lista.  um menino. Agora vou ao Departamento de Recursos Humanos da emissora descobrir quem so os herdeiros de 
Nina Flores.
      ? Muito bem, Ivo. Eu estou lendo o livro e esperando o Fagundes. 
      Imediatamente, Ivo dirigiu-se ao Departamento de Recursos Humanos da Mundial; conhecia l muito bem o Vadeco, funcionrio que fizera sua ficha de trabalho.
      ? Queria que me prestasse um favor, Vadeco.
      ? Pea, aqui voc tem cartaz, garoto das amenidades.
      ? Queria que visse a ficha de Nina Flores e me desse uma relao de seus dependentes.
      ? Por qu? Vo prestar a ela uma homenagem pstuma?
      ? Quem sabe?
      ? Volte dentro de quinze minutos.
      Ivo foi fazer hora no Departamento de Telejornalismo. Miranda e seus imediatos estavam no corre-corre de sempre. Os reprteres iam acompanhar a Polcia numa 
caa a traficantes de txicos nos morros do Rio. O dia no estava para amenidades. Voltou ao Recursos Humanos.
      Vadeco j esperava por Ivo com um papel anotado.
      ? Aqui esto os sortudos, os que vo entrar na gaita da velha. No so muitos, apenas trs.
      ? Filhos?
      ? Nina era solteirona. Um primo e dois sobrinhos.
      ? A tem o endereo deles?
      ? Tem, e moram todos no Rio.
      ? Tchau.
       
      
     O SUSPEITO N1 PRIMO MAURCIO
       
      Ivo parou um txi e deu o endereo do primeiro nome da lista fornecida por Vadeco, Maurcio Flores, primo de Nina. O carro parou diante duma bela e antiga 
casa da Gvea. Tocou a campainha. Uma jovem empregada apareceu diante do porto.
      ? Seu Maurcio est? ? perguntou Ivo.
      ? Est. O que o senhor deseja?
      ? Sou da Mundial e gostaria de conversar um pouco com ele ? disse Ivo, lembrando que na precipitao esquecera de imaginar um bom pretexto.
      A empregada abriu o porto.
      ? Acompanhe-me. Ele est nos fundos.
      Ivo seguiu a empregada pelo jardim que circundava a casa. Nos fundos, sentado num banco de pedra, tomando sol, estava Maurcio. Era um homem duns setenta anos, 
muito gordo, que usava culos escuros e grossos como fundo de garrafa. Um gato angor dormia sobre suas pernas.
      ? H um moo aqui, que quer falar com o senhor. Maurcio ergueu o brao com a mo estendida, mas no precisamente na direo de Ivo. O reprter apertou-a.
      ? Sou da Mundial ? disse Ivo.
      ? Muito prazer.
      ? Ns, da emissora, estamos pensando em fazer um programa especial, dedicado  memria de Nina Flores, e eu fui incumbido de visitar seus parentes e amigos 
ntimos.
      ? Ah, Nina. Aquela simptica tresloucada! Que triste fim foi ter!
      ? O senhor e ela eram primos, no? Davam-se bem?
      ? Na mocidade ramos ntimos. Depois, ficvamos anos sem nos ver. Sempre lamentei no poder ver seus shows de tev. Apenas ouvia. Mas, antigamente, quando 
tinha boa viso, no perdia seus espetculos no teatro.
      ? O senhor no v nada?
      ? Quase nada, faz vinte anos. Mas no sou desse que se queixam. Deus at foi bom comigo. Desenvolveu meu olfato; sinto como ningum o perfume das flores. ? 
Acariciou o plo do gato. ? Meu tato  de primeira qualidade. Como e bebo do melhor e sou capaz de dar uma volta pelo quarteiro sem esbarres. Meu mundo apenas 
ficou menor, encolheu, mas ainda gosto dele. O que quer saber sobre Nina?
      Durante quase uma hora, Ivo ouviu uma longa seqncia de recordaes. Sua ateno, porm, concentrava-se no segundo nome da lista, um sobrinho de Nina chamado 
Evandro.
      
      
     O SUSPEITO N 2 PRIMO EVANDRO
      
      Antes de passar pela casa de Evandro, j no perodo da tarde, Ivo tornou a telefonar para Djalma Ventura.
      ? J risquei o primeiro nome da lista dos parentes de Nina, o primo dela.  um homem bastante idoso e quase cego h vinte anos.
      ? No tem filhos?
      ? No, e  vivo. Agora vou visitar um sobrinho dela, Evandro.
      ? Mantenha-me informado e no fale a ningum do nosso trabalho. Um txi levou Ivo ao bairro do Encantado. A casa de Evandro, geminada, no tinha os jardins 
e a boa aparncia da residncia de Maurcio. Tocou a campainha. Uma mulher moa, mas prematuramente envelhecida, abriu a porta.
      ? Boa tarde, eu sou da TV Mundial. Vamos fazer um programa especial em homenagem a Nina Flores e desejava conversar com seu Evandro. Ele mora aqui, no? ? 
perguntou Ivo.
      ? Morava ? respondeu a mulher. ? Morreu h dois anos.
      ? Morreu?
      ? Num desastre de automvel. Era meu marido.
      ? Oh, no sabia. A senhora tem filhos?
      ? Dois. Esto no colgio. Um tem doze e outro, dez anos.
      ? Conhecia bem Nina Flores?
      ? Se a vi quatro vezes pessoalmente foi muito. Vivamos mal, mas Evandro nunca lhe pediu favores. Visite Nelson Flores. Dos parentes de Nina, era o nico que 
se relacionava com ela. Meio doido como a tia.
      Era o terceiro nome da lista que Vadeco dera a Ivo.
      
      
     SUSPEITO N 3 NLSON FLORES
       
       A locomotiva, atingindo sua velocidade mxima, puxava cinco vages sobre trilhos, que iam do quarto de brinquedos ao grande living do apartamento, depois 
de circularem dez metros pelo corredor. Nelson, ajoelhado ao lado da estao, com os cabelos cados na testa, nem tomava conhecimento do visitante. Apesar de ter 
uns trinta anos, amava brinquedos eletrnicos. Seu apartamento era uma espcie de Disneylndia.
      Controlando a velocidade do trem por um controle remoto, Nelson exultava.
      ? J viu um trem igual, Joo?
      ? Meu nome  Ivo.
      ? Desculpe, para mim todo mundo  Joo. Este  japons. Custou uma nota, mas valeu a pena. Sabe qual  meu sonho? Participar duma corrida de trens. Como eu 
gosto desta geringona, Joo.
      ? Sua tia tambm gostava de brinquedos eletrnicos?
      ? Se gostava, no sei, mas era quem pagava as contas.
      ? Ela foi assassinada num trem-fantasma do parque.
      Nelson, com os olhos fixos no comboio, que se aproximava da estao, no se perturbou com a lembrana.
      ? Sabe qual  meu plano? Montar um pavilho de miniaturas. Com ingressos pagos, naturalmente. O que acha da bolao?
      ? Parece boa.
      ? Pavilho "Nina Flores". Sou tarado por eletrnica desde que a tia me deu o primeiro brinquedo. Gamado. Mas o que mesmo veio fazer aqui, garoto?
      ? A TV Mundial vai prestar uma homenagem  sua tia e eu estou entrevistando seus parentes e amigos. Vocs eram muito chegados, no?
      ? Sempre fui o queridinho da velha. E  at capaz que fique com toda a herana dela. Evandro morreu e tio Maurcio  rico. Acho que o bolo todo vai ser meu.
      Ivo, que no esperava encontrar um suspeito do tipo de Nelson, improvisou uma pergunta.
      ? Sofreu muito quando ela morreu?
      ? Para ser franco, no. Tia Nina j tinha vivido bastante e sempre numa boa.
      ? Conhecia Fbio Rocha e Pedro Ventura?
      ? s vezes eles iam s festas que tia Nina dava.
      ? E o reprter Paulo Maciel?
      Nelson Flores olhou para Ivo desconfiado e apertou o boto onde se lia stop, fazendo o trem parar. A brincadeira acabara, de cara feia.
      ? No conhecia ? respondeu secamente. ? Agora tenho mais o que fazer. Vou acompanh-lo at a porta.
      A sada, Ivo disse um "at outro dia", que no obteve resposta. Teve a impresso de que Nelson, pressentindo suas intenes, no o receberia mais. Mas estava 
satisfeito porque o trabalho resultara no encontro dum suspeito suspeitssimo.
      Na rua, dando mais uma olhada ao longnquo mas elegante edifcio onde Nelson morava, Ivo pensou: "Fiz o que pude, o resto  com o detetive".
      
      
     IVO INFORMA DJALMA
       
      Assim que Ivo entrou na quitinete, ligou para Djalma.
      ? Djalma,  o Ivo. Acabo de ter encontro com Nelson Flores, sobrinho de Nina.  um cara doido, que s se preocupa com brinquedos eletrnicos. Um tipo estranhssimo. 
Para mim, ele  o homem.
      ? timo, Ivo. Onde voc est?
      ? No meu apartamento.
      ? Continue a e no abra o bico. Vou falar com o Fagundes. Parece que ele tambm est no seu caminho.
      ? E o romance?
      ? Estou no final. Convenceu-me. Aguarde telefonema.
      
      
     A RETA DE CHEGADA
     
      Ivo sentiu que todo o enigma se esclarecia. Quem poderia ser o assassino, a no ser um herdeiro maluco do tipo Nelson Flores? O que no entendia era como a 
Polcia no batera  sua porta. Tomou trs copos de gua  espera do telefone de Djalma.
      J era noite, e tarde, quando o telefone tocou.
      ?  seu Ivo?
      Ivo no reconheceu a voz.
      ? Sim.
      ? Aqui  Fagundes, o detetive.
      ? Ah, pode falar.
      ? Nossas suspeitas coincidem. Sei de mais coisas sobre o tal Nelson. Vamos dar um aperto nele imediatamente. Pode me esperar hoje, s onze e meia, perto do 
estacionamento pblico, prximo ao edifcio onde ele mora?
      ? Hoje mesmo?
      ? Ele vai viajar para fora do pas e ento as coisas se complicariam.
      ? Disse perto do estacionamento pblico?
      ? Exatamente. No falte e, por favor, no conte nada a ningum. 
      Ivo olhou o relgio. Passava das dez e meia. Precisava ir indo, porque Nelson Flores morava num conjunto de edifcios muito distante. Mas, antes de sair, desobedeceu 
ao pedido de Fagundes: telefonou para Renata. Ningum atendeu.
      
      
        SOZINHO, NA NOITE ESCURA
     
      Ivo desceu do txi e despediu-se alguns minutos antes das onze e meia. L estava o estacionamento pblico, com sua entrada em forma de tnel. De dia, o movimento 
era intenso, mas,  noite, nenhum carro entrava ou saa. A avenida, tambm deserta, parecia o local certo para encontros secretos. Tudo soturno demais. Por que Fagundes 
no marcara o encontro prximo ao apartamento de Nelson Flores? Seria ele um desses detetives de comdia que amam os cenrios sombrios?
      Os minutos passavam, intensificando a escurido. Sentindo-se solitrio demais, Ivo viu um orelho numa ilhota e atravessou a avenida. Felizmente trazia consigo 
uma ficha telefnica. Ligou para Renata com receio de no encontr-la.
      ? Quem fala?
      Era a voz de Renata.
      ? Renata,  o Ivo. Estou aqui num estacionamento pblico, perto do apartamento de Nelson Flores.
      ? Aquele moleco que lida com brinquedos eletrnicos?
      ? Voc o conhece?
      ? Fui uma vez com Nina numa festinha no apartamento dele.
      ? Pois ele  o maior suspeito dos assassinatos.
      ? Quem disse isso?
      ? Bem,  a minha opinio e a do detetive Fagundes tambm.
      ? Esto enganados. Nelson estava no Japo comprando brinquedos eletrnicos quando Fbio e Nina foram assassinados. Nem esteve presente no enterro dela. E, 
justamente na noite do assassinato de Pedro Ventura, ele dava uma entrevista, ao vivo, sobre um pavilho de brinquedos que pretende construir. A Polcia no  to 
boboca assim, Ivo.
      ? E eu aqui, nesta escurido, esperando um detetive calhorda.
      ? No perca mais tempo com isso, volte. Sabia que esse  o local predileto dos assaltantes?
      ? Boa noite, ento.
      ? Boa noite, querido.
      Ivo desligou o telefone. No mesmo instante aproximava-se dele um homem de cabelos vermelhos. Na mo, parecia segurar um revlver.
      
      
     O HOMEM DE CABELOS VERMELHOS
     
      Ivo mal viu o homem de cabelos vermelhos, provavelmente o que andava comprando exemplares de O mensageiro da morte nos sebos, e correu, sem direo. Imediatamente 
ouviu um tiro. Fugindo, olhou para trs. O homem perseguia-o a pouca distncia. Zigue-zagueou para fugir dos disparos. Mas o segundo tiro deu-lhe a impresso de 
que passara a centmetros de sua cabea. Entrou no estacionamento, pondo todas as suas foras nas pernas e na garganta.
      A medida que gritava, Ivo ouvia o eco de sua voz. O estacionamento era enorme e possua no mnimo dois pisos, porm no havia nenhum carro particular estacionado, 
alm de um velho furgo. E ningum atendia a seus gritos. O criminoso, ao marcar o encontro, sabia que o ambiente e horrio lhe seriam favorveis.
      Ivo no ouviu mais passos, foi parando. Dentro do estacionamento, a escurido no era total, havia luzes nas curvas, mas a penumbra dominava quase todo o espao. 
Ficou parado numa curva em declive, entre dois sales. S ouvia sua respirao ofegante. Durante muitos minutos no ouviu nenhum rudo exterior, e quando j acreditava 
que seu perseguidor desistira, percebeu o ronco suave dum motor. Lentamente, com os faris altos, um carro entrava no estacionamento.
      Voltando a correr, Ivo sentiu que o carro, j mais rpido, aproximava-se, com a inteno clara de atropel-lo. Correu o mais que pde, ao ouvir o ranger de 
pneus numa curva. Atingiu o segundo piso, onde a iluminao era ainda mais escassa. Quando viu o carro vir a toda velocidade em sua direo ficou tonto, por um momento. 
Saltando como se tivesse molas nas pernas, caiu de comprido no cho. Quando se levantou, com a boca seca e amarga, viu novamente aquele touro diante dos olhos. Dessa 
vez correu em ziguezague e conseguiu proteger-se atrs duma estreita coluna.
      ? Ei! O que est acontecendo aqui? ? gritou algum, vindo do primeiro piso.
      Era um vigilante que afinal aparecia.
      ? Esto querendo me matar! ? respondeu Ivo, correndo em sua direo.
      O carro fez uma volta completa pelo salo do segundo piso.
      ? Pare! ? ordenou o vigilante. ? Pare!
      Quando Ivo ouviu o impacto, j retornava ao primeiro piso pela curva em aclive, mas, num relance, chegou a ver o corpo do vigilante estendido no cho. Ao passar 
pelo furgo, sentiu-se exausto. Pensou em proteger-se ao lado dele, o que no o salvaria do revlver do agressor, porm preferiu tentar outra coisa. Na infncia, 
vira um automvel desbrecado precipitar-se numa ladeira. Abriu a porta do furgo e soltou o freio de mo. Em seguida, atrs dele, esperou ouvir o carro do homem 
de cabelos vermelhos subindo a rampa para o primeiro piso. Ento, empurrou-o com fora.
      O furgo, a princpio lento, rodou veloz para baixo quando o carro j saa da rampa. O choque entre os dois ecoou como um terremoto. Ivo poderia ter corrido 
para a rua, mas esperou para constatar o resultado do desastre que provocara. O homem de cabelos vermelhos teria perdido os sentidos? Estaria impossibilitado de 
se mover? Aguardou.
      Minutos depois, Ivo ouvia passos na rampa e logo em seguida viu uma sombra. A frente do tnel de entrada, iluminado pela luz da rua, ele era um bom alvo. O 
homem de cabelos vermelhos atirou mais uma vez. A mesma sensao de bala passando de raspo. Correu para a avenida, que continuava deserta. Colocou-se no meio da 
via  espera de que algum automvel passasse. Mais um tiro: o homem de cabelos vermelhos,  entrada do estacionamento, errava mais uma vez o alvo. Depois, mancando 
duma perna, correu desesperadamente, aproximando-se de Ivo.
      "Ele ainda tem duas balas", pensou o rapaz, j fugindo em ziguezague, "e agora, ferido, no vai me alcanar", concluiu. Vendo que Ivo ganhava distncia, o 
perseguidor disparou outra vez. Olhou para trs; o homem fazia um esforo imenso para correr, mas perdia-o de vista. Ivo sentia-se j livre quando pisou em falso 
e caiu. Foi o pior momento. Num instante, o criminoso aproximava-se com sua arma.
      Ivo saltou de p e depois baixou o corpo para desnortear o homem de cabelos vermelhos, que se deteve: era a ltima bala, no podia errar. Ivo gingou, movendo-se 
todo. Melhor que voltar-lhe as costas. Foi recuando, de frente para a arma, a balanar-se como um capoeirista. E quando no deu para se afastar mais, mergulhou inesperadamente 
sobre o agressor.
      O homem de cabelos vermelhos, que no esperava essa reao, caiu no asfalto, levando Ivo na queda. O rapaz, para evitar um disparo  queima-roupa, segurou-lhe 
o punho. Estava cansado, mas o outro tambm estava, alm de mais velho e ferido. A luta, no cho, parecia no acabar nunca; Ivo, no entanto, aos poucos, centmetro 
a centmetro, colocou seu dedo sobre o dedo do criminoso, que estava no gatilho. Apenas um gato vagabundo presenciava a cena de longe. Ivo viu-o fugir quando conseguiu 
forar o ltimo disparo da arma.
      Com o tambor de seu revlver vazio, o homem de cabelos vermelhos tentou usar as mos para apertar o pescoo de Ivo. Exausto demais para matar algum, deu tempo 
para que Ivo, pegando a arma, lhe desferisse uma coronhada na testa. Levantou-se, ento, desarvorado, enquanto o vigilante do estacionamento aproximava-se, com manchas 
de sangue pelo corpo.
       
      ? Segure-o ? conseguiu dizer. ? A Polcia j vem a. Telefonei.
      E vinha mesmo, um carro de cada lado da avenida. Ivo no conseguiu segur-lo, ele escapou, mas logo alm foi cercado pelos policiais. O rapaz abaixou-se e 
apanhou algo que cara do fugitivo: uma cabeleira vermelha.
      
      
      
      
      
     O HOMEM DE CABELEIRA VERMELHA
     ? SEM A CABELEIRA
     
      No adiantava negar nada; o homem de cabeleira vermelha, sem ela, com um ferimento na testa e a perna ferida, estava na delegacia, diante do doutor Reis, da 
equipe do Miranda, que para l correra s pressas, e de Ivo, o heri da histria. Todos estavam muito tensos e surpresos, e o detetive particular Fagundes, que chegou 
em seguida, ao saber de tudo, exclamou:
      ? Puxa! Ele me fez de bobo o tempo todo!
      Djalma Ventura comeou dizendo que j tinha uma bronca contra o tio, pois ele se negara a ajud-lo na carreira teatral, negando-lhe o talento. Era frio e orgulhoso; 
para ele o mundo s possui dois gnios da arte de representar, Pedro Ventura e Laurence Olivier.
      ? Meu consolo era que, vinte anos mais moo, eu seria seu herdeiro. Mas levei um choque quando me apresentou Valria, com quem pretendia casar-se brevemente. 
Decidi mat-lo, mas teria de ser um trabalho elaborado, digno dum artista. Foi ento que me lembrei dum filme que assistira na juventude. Era a histria dum homem 
herdeiro duma fortuna, que mata uma srie de pessoas, entre elas seu tio milionrio, para que tudo parecesse obra dum manaco. Fiquei semanas com essa idia na cabea.
      Foi quando Djalma Ventura teve notcia pelos jornais da campanha moralista, cheia de dios, que uma certa Liga movia contra os artistas, em especial os da 
Mundial, que tinham maior ibope. Usando culos e uma peruca vermelha foi bater na casa de Petra Santana, na Tijuca, oferecendo-se para fazer servios domsticos. 
Deu certo: ela precisava dum eletricista. Pretendia conhecer melhor a entidade e furtar qualquer objeto que, deixado no local do crime, desviasse para a Liga a ateno 
policial. Num momento em que ficou s, na sala de jantar de Petra, abrindo as gavetas, viu o faqueiro e, numa inspirao de momento, retirou as trs facas. E levou 
embora no apenas objetos comprometedores, mas as prprias armas dos crimes.
      ? Eu conhecia Fbio Rocha. Quando ele entrava em seu carro, saindo dum restaurante, pedi-lhe uma carona. Conversvamos sobre fofocas da televiso e, ao passarmos 
pela praia do Leblon, deserta, eu lhe disse: "L est o paspalho do cometa Halley. Vamos dar uma olhada?" Fomos  praia, na maior escurido, e, enquanto ele olhava 
para o cu,  procura do cometa, matei-o e enterrei a faca na areia.
      ? Por que comeou a mandar as mensagens a partir da segunda vtima? ? perguntou o delegado.
      ? Para implicar ainda mais as sentinelas com o carimbo do correio da Tijuca. Alm do mais, mensagens de morte  coisa de manacos e fanticos. Quando mandei 
a primeira, ainda no escolhera quem mataria a seguir. Mas na prpria Mundial soube da gravao externa no parque. Fui para l, vestido de punk, como se fosse um 
extico figurante da cena. No foi nada fcil, s na ltima viagem, j para gravar, foi que consegui lugar no trenzinho, atrs de Nina. Enfiei a faca nas costas 
da coroa, joguei a arma no tnel e, ao chegar  estao, desapareci.
      Para fazer o punk raspou os cabelos s dos lados e dava um jeito com vaselina e laque. Quando aparecia como Djalma, penteava os cabelos de modo a disfarar 
a parte raspada. Para matar o tio, voltou a usar culos e cabeleira vermelha. Conhecia bem o teatro e entrou pela porta dos fundos durante o intervalo da pea. Pedro 
estava sentado no camarim, diante do espelho, quando entrou. Foi um golpe s. Levando a faca, foi para seu apartamento, trocou de roupa, guardou a cabeleira e voltou 
ao teatro para chorar a morte do ator.
      ? Tudo ia bem at o dia em que Paulo Maciel disse na televiso que tinha uma pista quente. Como eu sempre ia  emissora para manter contato com o telejornal, 
afastando de mim qualquer suspeita, conhecia o jornalista. Segui-o por toda parte, em meu carro, aquela noite. Quando ele entrava num restaurante, abordei-o: "Como 
 Paulo? Tem mesmo uma pista firme ou  inveno do departamento?" "No  pista,  uma deduo", respondeu. "Coisa s minha." "Me d uma dica, estou ansioso." "Voc 
j leu um romance chamado O correio da morte?" "No." "Nesse romance h uma seqncia de crimes, com envio de mensagens, como est acontecendo aqui. Mas o criminoso 
no era nenhum doido ou fantico como pretendia fazer crer. Matava para herdar uma herana de uma das vtimas. Amanh vou expor essa teoria ao delegado."
      Djalma no perdeu tempo: telefonou para a Mundial, dizendo-se um amigo de Paulo que acabara de chegar de So Paulo, pediu seu endereo e seguiu para l. No 
havia vigilante na garagem do edifcio; entrou, escondeu-se atrs dum carro e ficou  espera do jornalista. Dias depois, voltando a ser punk, tentou entrar no apartamento 
para apoderar-se do romance. 
      Receava que Paulo tivesse falado dele a algum. O porteiro, porm, apareceu e Djalma teve de descer as escadas precipitadamente.
      ? Quando soube que um irmo de Paulo, tambm da Mundial, passou a ocupar seu mesmo apartamento, fiquei preocupado. E se ele lesse o livro e chegasse  mesma 
concluso? Tratei de conhec-lo, fizemos amizade, e fui visit-lo sob o pretexto de descobrir o que o punk fora procurar l. O maldito romance estava l, no criando-mudo. 
Usando culos e cabeleira vermelha, aproximei-me duma faxineira, que fazia a limpeza do apartamento. Meu erro. Fazendo desaparecer o livro, chamei a ateno para 
ele.
      ? Como conseguiu convencer a faxineira a roub-lo? ? perguntou Miranda.
      ? Disse que era um colecionador e que Ivo recusava-se a vender o livro. Ofereci-lhe uma boa quantia. Ela no aceitou. Tripliquei a oferta. "Ele nem vai notar 
a falta", disse-lhe. Mas, dois dias mais tarde, ao reencontrar-me com ela, para ver se estava tudo bem, encontrei-a apavorada, pois Ivo dera pela falta do livro. 
Usei o expediente de devolver outro, de aspecto parecido. No pegou, ele queria mesmo O correio da morte. Ento a coisa ficou cara: tive que lhe dar um pacote de 
dinheiro para que ela apanhasse seus trastes e desaparecesse, sem deixar o novo endereo com ningum.
      Depois de se livrar da faxineira Rosa, Djalma teve a idia de percorrer os sebos da cidade  procura dos exemplares remanescentes do romance. Em seguida, mandava 
outra mensagem sinistra ao Departamento de Jornalismo da Mundial. Estava inseguro; a Polcia no atribua os crimes  Liga moralista de Petra Santana e Ivo, aliado 
 Renata, podia causar-lhe complicaes. Mas a teve uma inspirao que julgou genial.
      ? Matar mais algum que confessasse os crimes ? prosseguiu Djalma. ? Que pusesse um ponto final em todo o enigma. Assim corrigiria tambm a tentativa fracassada 
de envolver as sentinelas no caso. Eu conhecia bem Carlos Prata, era um despeitado. Fiz a confisso, postei-a na caixa de sempre e fui visit-lo com uma proposta 
de contrato para trabalhar noutra emissora. E usei a terceira faca.
      Mas Djalma no ficou muito tranqilo mesmo depois do lance genial. Ao telefonar  Petra, para saber se seu servio fora bem feito, assustou-se ao verificar 
que ela desconfiava dele. Isso poderia levar a Polcia a reabrir as investigaes. Por outro lado, muita gente no acreditava na autenticidade da confisso do Prata. 
Para tornar-se mais insuspeito, contratou um detetive particular, Fagundes.
      ? O pior, porm, foi quando o garoto foi me visitar, levando-me o romance e pondo-me a par de sua teoria. Como seu irmo Paulo, tambm Ivo conclura que s 
um dos herdeiros poderia ser o criminoso. Cuidei de afast-lo de Fagundes, mas no pude evitar que ele investigasse por conta prpria. Entrevistou herdeiros de Nina, 
e fixou-se em Nelson Flores, um pirado com mania de brinquedos eletrnicos. O garoto ignorava que Nelson estava no exterior por ocasio dos dois primeiros crimes. 
Quando soubesse disso, s eu restaria em sua lista.
      ? Ento marcou o encontro com... ? disse o delegado.
      ? Como Ivo no conversara com Fagundes, telefonei para ele, dizendo ser o detetive e marquei o encontro, perto do apartamento de Nelson, um lugar bastante 
deserto  noite. Pretendia atropel-lo, mas decidi mat-lo a tiros e roubar-lhe o dinheiro, como se fosse um assalto. No deu certo.
      ? Onde acha que errou? ? perguntou Miranda.
      ? No roubo do romance. Quis bancar o perfeccionista. Se no o tivesse roubado atravs da faxineira, ele seria apenas um livro velho, que, talvez, Ivo nem lesse.
      ? E voc? ? perguntou Miranda. ? Leu O correio da morte?
      ? No. Detesto o gnero. De violenta basta a vida, esto de acordo?
      
      
     O EX-GAROTO DAS AMENIDADES
     
      A soluo do mistrio foi o assunto da semana, na tev e nos jornais. Ivo deu vrias entrevistas, nas quais s dizia uma coisa:
      ? Apenas terminei o trabalho que meu irmo havia comeado.
      Dona Beatriz, sua me, telefonou s para que o filho ouvisse o seu choro emocionado. Laura, por sua vez, enviou tantos beijos pelo telefone que eles no cabiam 
na linha.
      Elisa Bastos, atendendo  reportagem, deu uma entrevista que teria escandalizado Petra Santana: fora aquela manh ao parque porque era grande f da Nina Flores, 
por mais desbocada que fosse. E rompeu publicamente com a Liga, que a impedia de gostar dos artistas das novelas e dos shows, sua paixo secreta.
      Entrevistada, Petra contou tudo sobre as facas e descreveu o susto que levara ao v-las no vdeo. Mas no esclareceu se pretendia comunicar o fato  Polcia. 
Terminou a entrevista azeda e enaltecendo sua entidade.
      ? O lugar de muitos artistas  no inferno, mas no so as sentinelas que os levaro para l.
      Miranda deu um tapa nas costas de Ivo:
      ? Voc no vai ficar mais nas amenidades, garoto. J pode enfrentar trabalho de gente grande.
      Doutor Reis no concedeu entrevistas, j que o caso se encerrara; como todos sabem, a Polcia  muito ocupada.
      
      
      
      
      
      
     VEJAM QUEM APARECEU NA PRAIA
     
      O melhor de tudo, aquela curtio, foi quando Ivo e Renata se encontraram na praia, no domingo mais azul do ms. Quase no se falavam; sorriam e abraavam-se.
      ? Puxa, Ivo! Voc sozinho acabou abotoando o cabeleira!
      ? Sozinho? Se no fosse seu empurro, assim que cheguei, eu no teria conseguido!
      ? A gente liga a telinha e s d voc!
       
      Iniciado por um ou por outro, talvez por ambos, aquele beijo na praia, sob o sol de vero, diante de tanta gente, parecia ter comeo e meio; fim no. E quem 
sabe tivesse batido o recorde mundial de durao se algum no o tivesse interrompido.
      ? Desavergonhados! Parem! Esto se beijando h trinta e um segundos!
      Era Petra Santana, a lder das sentinelas, com o cronmetro na mo. Mais resoluta que nunca, levava sua campanha s praias do Rio.
      Banhistas e transeuntes, no entanto, aplaudiram os namorados.
      ? Acho que esto pedindo bis ? observou Ivo.
        
      FIM
      
        BIOGRAFIA
        Marcos Rey, pseudnimo de Edmundo Donato, nasceu em So Paulo, 1925, cidade que sempre foi o cenrio de seus contos e romances. Estreou em 1953 com a novela 
Um gato no tringulo. Mistrio do cinco estrelas, O rapto do garoto de ouro, Dinheiro do cu, entre outros, alm da produo voltada ao pblico adulto, esto sendo 
reeditados pela Global Editora.
        Voc pode conhecer mais sobre Marcos Rey e sua obra no site: www.marcosrey.com.br
      
      
      LVROS DE MARCOS REY PELA GLOBAL EDITORA
      
      INFANTO-JUVENIL
      Bem-vindos ao Rio
      Corao roubado*
      Dinheiro do cu
      Doze horas de terror
      Enigma na televiso
      O diabo no porta-malas
      O mistrio do cinco estrelas
      O rapto do garoto de ouro
      Na rota do perigo 
      Sozinha no mundo
      
      ADULTOS
      O enterro da cafetina
      Soy loco por ti, Amrica!
      O pndulo da noite
      O co da meia-noite
      Mano duan (indito)*
      Melhores Crnicas Marcos Rey*
      Melhores Contos Marcos Rey
      
      
      
      
      
      




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